Menstruar é um ato político

O domínio patriarcal da cultura, da política e da religião impede que a questão da menstruação seja discutida como uma questão de saúde pública e, assim como a gravidez e a maternidade, passa a ser relegada ao âmbito privado feminino. No Brasil, não existem políticas públicas de qualidade relacionadas à saúde física, psicológica e social de mulheres que menstruam, como a distribuição gratuita de absorventes em escolas públicas e particulares, a criação de programas de ensino sobre reprodução humana de uma forma não-sexista, a criação de políticas para a desmistificação da menstruação, entre inúmeras outras possibilidades.

A questão da menstruação aparece com consequências socioculturais e econômicas diferentes em cada região, país e cultura, embora sejam sempre negativas.

No livro As Boas Mulheres da China, a jornalista XueXinran relata uma região montanhosa remota da China na qual mulheres utilizam folhas de árvore como absorvente, uma vez que não existem outras coisas que possam utilizar. Ao chegar à menarca, as mulheres recebem um conjunto de folhas – raras na região, devido ao clima seco – que deve durar para o resto de suas vidas. Porém, o atrito das folhas com a parte interna das pernas causa ferimentos que fazem com que meninas e mulheres andem com as pernas arqueadas, além de aumentarem o risco de infecções na região da vagina.

Em regiões urbanizadas da Índia, estima-se que entre 43% e 88% das meninas e mulheres utilizem absorventes de pano laváveis, mas que a higienização destes não é feita com sabão ou água limpa, diferindo das folhas supracitadas apenas pela maior comodidade, mas se igualando no perigo de infecções.

No Brasil, relatos do livro Presas que Menstruam mostram que absorventes são considerados itens valiosos nas prisões brasileiras, uma vez que o governo raramente fornece quantidades adequadas do produto para as detentas. Para contornar a situação, as presas recorrem a métodos perigosos, como o uso de miolo de pão como absorvente interno, o que pode causar infecções graves.

foto-menstruac3a7c3a3oFoto de Ciara O’Neill.

Além de impedimentos culturais, sociais e políticos, a menstruação segura encontra barreiras também econômicas. No Brasil, um pacote com 8 absorventes externos descartáveis ultrapassa 5 reais. Considerando o uso de 4 absorventes por dia de fluxo e 5 dias de fluxo, temos o uso aproximado de 20 absorventes por mês, ou seja, 240 absorventes, ou 30 pacotes de absorventes, ao ano. Isso totaliza um gasto de, no mínimo, 150 reais anuais, de forma que a higiene menstrual, necessária para que não haja infecções e complicações posteriores, é extremamente cara para um país que menos de 10 anos atrás estava abaixo da linha da pobreza da ONU. Já nos Estados Unidos, absorventes descartáveis são taxados pelo governo como itens de luxo – dificultando a acessibilidade de camadas mais pobres à higiene menstrual e passando uma mensagem clara quanto à opinião governamental da saúde reprodutiva.

A falta de segurança menstrual unida aos tabus sobre o assunto afeta o acesso da mulher à educação. Segundo o Comitê para a Eliminação de Discriminação contra Mulheres da ONU, há casos de meninas que deixam a escola pela falta de políticas públicas direcionadas à menstruação.

Mesmo mulheres que têm o privilégio de crescer em um ambiente no qual a menstruação não é abominada e tratada como doença são condicionadas a sentir vergonha de seu período menstrual, escondendo absorventes, escondendo dores de cólicas e enjoos. Muitas vezes, isso implica na necessidade de faltar à escola. Pesquisas mostram que meninas de uma escola em Uganda perdiam cerca de 1 a 3 dias de aula mensalmente por falta de acesso à higiene menstrual e dores decorrentes do período. Em um ano letivo, essas meninas perdem cerca de 8 a 24 dias letivos.

Esses diferentes dados e relatos mostram como o acesso à seguridade menstrual estão vinculados à figura feminina e, portanto, à subalternidade. Por consequência dessa ligação, tais assuntos são ignorados no âmbito político, principalmente por conta da dominação da masculinidade nesse ambiente. A dominação é, não apenas dos homens, mas também da masculinidade, ou seja, da noção de superioridade atribuída a características socialmente designadas aos homens, como a racionalidade e a calma.

O tabu criado acerca da saúde feminina tem relação direta com a misoginia. Mesmo em regiões consideradas mais desenvolvidas, a menstruação é utilizada como forma de desqualificação de mulheres no espaço público e, portanto, da dominação masculina das mulheres e do espaço (não) ocupado por elas.

É extremamente comum que, no espaço de trabalho, sejam feitas piadas ligando algum momento de estresse feminino com a menstruação, sugerindo que a menstruação seria responsável pelo afastamento da calma e da racionalidade, características impostas como necessárias para a existência legítima no espaço público. Dessa forma, cria-se uma validação do distanciamento das mulheres desse espaço, taxando-as de descontroladas. Vê-se, assim, que não estamos tão distantes da Idade Média no que diz respeito ao tratamento das mulheres.

A menstruação física, social e psicologicamente segura é um ato político de enfraquecimento do patriarcado, pois aumenta o acesso de mulheres à educação e, consequentemente, ao mercado de trabalho e ao espaço político, atuando diretamente em direção à emancipação feminina.

Fornecer absorventes descartáveis, absorventes reutilizáveis e condições de higienização deles, coletores menstruais, remédios e métodos para lidar com cólicas, enjoos e dores de cabeça são formas de fortalecer a luta contra a dominação patriarcal do espaço político e distanciam a mulher do uso compulsório do espaço privado.

O nome da autora é Bárbara Blum, e ela estuda Relações Internacionais na PUC-SP

Esse texto foi publicado originalmente aqui.

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