Não, vocês não vão nos calar!

Perdi a conta de quantas vezes bloquearam meu perfil por conta da minha página O Gato e o Diabo.

Todas as vezes denunciaram por conter nudez explicita, vocabulário impróprio e empoderamento feminista demais. Denúncias sobre assédio, violência contra a mulher, aqueles assuntos que escutamos tantas vezes que chegam a ser banalizados.  Machismo. Feminicídio. Nada novo sobre o sol.

Tenho um projeto chamado Assistência Jurídica para as Minas, que auxilia mulheres em situação de risco, sem condições financeiras, que está finalmente quase concluído. Mas, atuava de forma irregular. Sim é irregular explicar para uma mulher que não sabe como funciona o nosso sistema jurídico, é irregular guiar uma mulher à uma delegacia para fazer um Boletim de Ocorrência, é irregular guiar uma mulher até uma Defensoria Pública. Apresentei e pedi ajuda para o meu projeto na própria OAB da minha seccional e até agora não obtive retorno. A mesma OAB que move um projeto conta a nossa presidenta e se silencia mediante as violências que, nós mulheres, sofremos diariamente. Uma OAB machista, misógina, que resume o dia da mulher apenas a palestras cotidianas, chás e sorteios de idas ao salão de beleza e manicure. Com certeza, se as operárias russas do início do século XX recebessem bombons e flores em comemoração ao Dia da Mulher, talvez se sentissem ofendidas.

Nos meus poucos anos como estudante de direito e vários como feminista assumida e sobrevivente de um relacionamento extremamente abusivo advindo dos meus pais, percebi que é antiético ser mulher. É imoral ser mulher. Ativista e feminista, muito menos. Negra, nem cogitamos.

Vamos para a situação que causou esse odisseia?

A mulher posta o ocorrido do assédio que sofreu em Curitiba nas redes sociais. Homens postam fotos com várias analogias sobre a situação com iogurte, molho de tomate, cola branca, falando que é mentira, rindo, humilhando. Maynara Fanucci resumiu ontem todo meu sentimento: “A sociedade não tem espaço para mulheres que denunciam abusos e violências, só para as que se calam.”

É preciso que as pessoas saibam que mulheres são ameaçadas simplesmente por serem mulheres.

Não quero mais escutar que as mulheres são falsas, competitivas, se odeiam.

Não quero mais ser avaliada pela minha aparência, não apoio esse padrão que determinam. Não sustento mais que isso apague a autoestima de mulheres maravilhosas. Chega de “emagreça, embranqueça, alise, diminua, seque, suma”.

Não quero mais que o nosso trabalho seja reduzido, não seja reconhecido. Não merecemos ganhar menos, recebendo menos que os homens pelo mesmo posto.

Não quero nem aguento mais ouvir que licença maternidade é “férias”. Muito menos que toda a encargo da criação dos filhos está na nossa mão, toda a culpa é nossa.

Não quero mais suportar a violência obstétrica. Cansei de mais ouvir relatos de partos violentos, de mães abordadas como lixo, da desumanização da mulher grávida.

Cansei de ver mulheres morrendo pelas mãos de parceiros violentos, que não respeitam sua autonomia e muito menos a nossa existência.

Não aguento mais ter medo de voltar para casa à noite porque receio pela minha integridade física.

Não quero mais que nossa vida sexual determine nosso caráter. Não somos santas, não somos putas, somos pessoas com desejos.

Querem nos calar, mas não vão mais conseguir. Precisamos de mudanças e de empatia. Precisamos ser ouvidas e precisamos ser ouvidas agora. Nossos discursos e até nossas falas que muitas vezes foram deslegitimados, inúmeras vezes não garantiram a escuta de outras vozes. Mas precisamos ser ouvidas e precisamos ser ouvidas agora.

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Vamos juntas?

É o medo que os move. O que nos move tem que ser a coragem e a justiça em lutar pelo que é certo

Aquele tipo de texto difícil de escrever porque suas mãos ainda estão tremendo.

Eu só queria ir pra casa depois de uma longa espera no pronto atendimento. Pegar o ônibus, ir pra casa.

Entrei no tubo, o ônibus veio logo, estava cheio, horário de pico, mas sabem como é CENTENÁRIO/CAMPO COMPRIDO sempre tem espaço pra mais um.

Me ajeitei no cantinho, segurei a bolsa e só pensei na hora que ia poder tirar essa bota quente, pois Curitiba não decide quantas estações vai fazer em um dia.

Mas não é fácil assim, ir pra casa não é fácil assim. Se você é mulher e precisa pegar um ônibus lotado, com certeza, não vai ser fácil chegar em casa.

Guardei o celular na bolsa e foi então que eu percebi que ele estava ali. Parado bem nas minhas costas, aproveitando de cada curva para se esfregar em mim. Tentei dar um passo pra frente mas ele acompanhou, continuando encostado. Não bastasse ele começou a respirar muito forte por cima do meu ombro, chegando a gemer baixinho. Tentei empurra-lo com o cotovelo, ir para outro lugar, mas não tinha jeito. Ele continuou ali, se esfregando e gemendo. Precisei descer no tubo que seguia, mesmo não sendo o meu. Antes de sair o empurrei e disse a ele que era um velho nojento e deveria se envergonhar de agir desse modo em qualquer lugar que seja.

Ao descer percebi que ele não havia apenas se encostado e insinuado, ele havia ejaculado na minha saia, e então eu desabei.

Agora, chegando em casa, não estou feliz por tirar essas botas quentes. Agora, chegando em casa, estou limpando de mim mais um dia difícil de se chegar em casa.

Eu não quero mais ligar pra minha mãe chorando, eu não quero mais ter medo de andar na rua, eu não quero mais me culpar por ser a vítima, eu não quero mais ter que pensar no tamanho da minha saia antes de sair de casa, eu não quero ter que limpar a sujeira dos outros.

Desculpem o texto e a imagem, mas eu tô cansada, irritada e triste, e se eu tivesse a opção desejaria nunca ter que falar sobre essas coisas. Desejaria que essas coisas nunca acontecessem.

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Por Grazi Oliveira, que também teve seu perfil denunciado, porque uma mulher calada é bem mais aceita pela sociedade.

Por Jessica Beauvoir, moderadora d’O Gato e o Diabo.

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