“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Ontem o circo formado durante o processo da votação de Impeachment tornou-se motivo de piada nacional e internacionalmente já que antes de tudo, não existem efetivamente crimes de responsabilidade cometidos pela presidente. Os momentos surreais da votação, ficaram como diversão a parte, já que apenas afirmam que a veracidade, credibilidade do processo em andamento, é nula.

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Os confetes simbolizaram o Congresso Nacional em si: palhaços sem argumentos plausíveis e sem o mínimo conhecimento do trabalho que realizam, ou deveriam realizar pelo menos.

Entretanto um momento chamou muita atenção. Apenas para não perder o hábito das suas falas extremamente preconceituosas, durante o pronunciamento do seu voto Jair Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Ustra no decorrer do seu discurso. Ustra foi um dos torturadores mais temidos durante o período da Ditadura Militar e foi o único militar brasileiro a ser declarado “torturador” pela Justiça.

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Impossível resumir melhor, né senhor Deputado?

Muito antes da Comissão da Verdade em 2013, Ustra já havia sido manchete. A atriz Bete Mendes, que era deputada em 1985, encontrou-o como adido militar no Uruguai – e reconheceu nele seu torturador.

Ustra compareceu à Comissão e, apesar de ter um habeas corpus, respondeu a algumas perguntas. Disse que não cometeu nenhum crime e, em entrevistas, declarou que podem ter havido excessos, mas dos dois lados.

O dossiê da Ditadura inclui o nome dele e sob sua direção, ao menos 47 pessoas desapareceram ou morreram em São Paulo e existem denúncias de mais de 500 casos de tortura cometidos nas dependências do DOI-Codi no período em que ele atuava como comandante.

A crueldade de Ustra pode ser entendida com a leitura de diversos relatos de sobreviventes: Criméia Schmidt foi torturada mesmo grávida de 7 meses. Seus filhos foram levaram ao DOI-Codi e ouviram os gritos de diversos presos políticos sendo torturados e encararam uma mãe irreconhecível. Além disso, ao comando de Ustra, colocaram ratos na vagina de Dilma.

Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”.

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura.

Bolsonaro enalteceu ontem um torturador atroz, desumano, na Câmara dos Deputados. Exaltou o Golpe Militar de 1964 e foi ovacionado. Jorraram comentários à favor do Deputado, decorrentes da sua fala. Várias opiniões de cunho visivelmente conservadoras, apoiando e incitando ao ódio e a misoginia, não só contra a nossa presidente Dilma Rousseff, mas contra todas as mulheres que são representadas através do seu cargo.

Vários comentários ofensivos que circulam e persistem todos os dias na mídia e em rodas de conversa, reacionárias ou autodeclaradas progressistas. O cada vez mais aparente preconceito de gênero disfarçado de visão política. A negação de um período extremamente obscuro à democracia, no qual ainda existem cicatrizes que não podem e não devem ser jamais esquecidas.

A mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, é a da inexistência, da negação. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se aborda apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que alega que nada existiu, que a violência não deixou traços e muito menos indignação.

Não deveriam ser levadas em consideração, questões partidárias ou ideológicas quando citamos a Ditadura de 69. Mas sim, o fato de que várias pessoas pereceram friamente, injustamente e covardemente nos porões dessa mesma ditadura. Que milhares de mulheres foram violentadas e devem ser lembradas com respeito. Situação que visivelmente é desconsiderada, desacreditada e tratada com ironia publicamente.

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Flavia Penido em seu perfil no Facebook logo após o comentário ofensivo do Deputado Bolsonaro.

Hoje, anos após da ditadura brasileira, dos inúmeros muitos relatos dos sobreviventes, das violências incalculáveis que várias mulheres sofreram somente por serem mulheres e foram descritas, devem ser ouvidas e jamais esquecidas. Dar estima à história do que essas mulheres sofreram é reconhecer a nossa própria e das moças que virão depois de nós, pois, como mulheres e também feministas, permanecemos seguindo atrás de nossos direitos, ao mesmo tempo que lembramos e lutamos incansavelmente por justiça por todas que se sacrificaram.

Não passarão comentários machistas, misógino. Muito menos comentários que anseiam o retorno da Ditadura de 1964. A nossa história está viva e persiste. Nossos mortos e desaparecidos políticos jamais serão esquecidos.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Por Jessica Beauvoir, estudante de Direito da Universidade Federal de Rondônia, Feminista e moderadora da página O Gato e o Diabo.

Referências Bibliográficas:

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/08/opinion/1418042130_286849.html&gt;.

CARDOSO, Clarice. Quando a misoginia pauta as críticas ao governo Dilma. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/quando-a-misoginia-pauta-as-criticas-ao-governo-dilma&gt;.

LUCENA, Eleonora de. Minha História: Fui torturada em 1970 e denunciei o coronel Ustra. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1285003-minha-historia-fui-torturada-em-1970-e-denunciei-o-coronel-ustra.shtml&gt;.

SAFATLE, Vladimir. A verdade enjaulada. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/793/a-verdade-enjaulada-9436.html&gt;.

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