Seu feminismo acolhe as mães?

13445675_605334102976000_2450825139618696984_nA mulher dessa foto é Daniele Toledo. Ela tinha 21 anos quando tudo aconteceu. Na época era bem humilde, e tinha dois filhos, um menino de 3 anos e de uma menina bebê chamada de Vitória Maria.
Seu martírio começou na noite de 28 de outubro de 2006, em um sábado. Daniele tentou levar sua filha Vitória para o Hospital Universitário de Taubaté, na época administrado pela Fundação Universitária de Saúde de Taubaté (Fust). A menina sofria de problemas de saúde, nunca diagnosticados com precisão, desde o nascimento.
A gravidez da Vitória foi complicada e ela acabou nasceu prematura, só retornando para casa com 2 meses e meio de idade. Mas logo começou a ter febres convulsivas e a partir do sexto mês o quadro se agravou muito. Entre idas e vindas, até sua morte, foram oito vezes em que ela ficou internada na UTI.
Naquele sábado, entretanto, por uma estranha ordem administrativa, a instituição médica não aceitou a menina, então acabaram indo para o Hospital Municipal Infantil.
Daniele não foi aceita com a filha no Hospital Universitário, já que em uma das noites em que passava na instituição com sua filha, foi estuprada por um estudante do curso de Medicina.
Sem opções, passaram a noite no hospital municipal. Vitória depois de muita luta, não resistiu, depois de 3 paradas cardiorrespiratórias.

danieletoledo-20100922Durante a segunda parada cardíaca de Vitória, Daniele foi presa em flagrante. Não teve nem um último contato com a filha, não viveu o luto. Saiu do hospital chorando, algemada, direto para a delegacia sem nem entender o que tinha acontecido, sem saber direito se sua filha estava realmente morta.A partir de um teste rápido os policiais concluíram precipitadamente que existiam indícios de cocaína na mamadeira, incriminando Daniele. No mesmo dia, parte da imprensa veiculava o caso, acusando-a injustamente de “o monstro da mamadeira”.Daniele enfrentou camburão, delegacia e cadeia pública. Foi levada a um presídio na cidade vizinha sem nem ao menos um julgamento, no qual foi espancada por outras detentas após descobrirem a falsa acusação através de um programa local de televisão. Adquiriu assim várias sequelas graves, que penduram até hoje: perda a visão e da audição do lado direito do corpo, sendo reduzida a capacidade de movimento do mesmo lado, além de ter constantes convulsões.
Permaneceu cerca de quarenta dias presa.
Quando o resultado dos testes saíram, sua situação finalmente mudou: foi finalmente comprovado que o pó era na verdade era um medicamento para a doença rara que sua filha tinha.
Daniele ainda move duas ações, e em ambas pede indenização. Uma, contra o Estado, por causa da injusta prisão, espancamento e de toda dor que sofreu. A outra, contra a Fust, por causa do episódio de violência sexual. O estuprador, na época estudante de medicina, nunca foi punido devido a “falta de provas” (Daniele não foi nem ao menos submetida a exame de corpo de delito, sua denúncia foi considerada “irrelevante”). Hoje o sujeito exerce sua “honrada profissão” normalmente, e sua identidade até o momento não foi nem revelada.
613056-970x600-1DIFERENTEMENTE DE DANIELE, O AGRESSOR SEXUAL NÃO TEVE DESCONFIANÇA POR PARTE DO ESTADO, que permaneceu incrédulo ao seu lado, desde o princípio.
Em agosto o caso completa 10 anos e mesmo a moça tendo provado sua inocência judicialmente, não consegue nem ao menos “provar isso para a sociedade”. Arrumou vários empregos, mas era demitida instantaneamente, logo após descobrirem seu caso. Seu filho mais velho hoje é adolescente, e Daniele é impedida de frequentar reuniões escolares e acompanhar o rapaz em suas atividades. Também não consegue ir a ambientes públicos pois é frequentemente reconhecida.
Além de sequelas físicas, Daniele toma remédios para tratar depressão e síndrome do pânico adquiridas após os acontecimentos.
Aos 31 anos, desempregada e morando de favor, seu livro contando sua vida sofrida foi lançado na primeira quinzena de junho intitulado “Tristeza em Pó”.
As causas da morte de Vitória até hoje permanecem desconhecidas, pois foram tratadas com descaso após Daniele ser inocentada (ela acredita que a menina morreu devido a negligência médica).
A história de Daniele é apenas uma das milhares que existem, de várias mulheres, que são vítimas da violência misógina estatal, que está se tornando cada vez mais visível, e não será mais ignorada.
Ela não será calada. Nós não seremos caladas.
Nenhuma será deixada para trás.
Seguiremos nossa luta, juntas.
Força Daniele, você não está sozinha!

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Por Jessica Beauvoir, idealista, feminista, completamente apaixonada por gatos. Cuida d’O Gato e o Diabo e continua não desistindo do Assistência Jurídica para as Minas.

“Inocentada da morte da filha de 1 ano, mãe narra sequelas da prisão.”  – Via Folha de S.Paulo.
“Mãe acusada de matar a própria filha relata injustiça em livro.”  – Via Livraria da Folha.
‘A médica disse que eu tinha matado a minha filha’ – Via Estadão.

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