16 formas de combater a cultura do estupro

A cada 11 minutos, uma pessoa denuncia um estupro no Brasil. 88,5% das vítimas de estupro são mulheres. 50,7% das vítimas de estupro tem menos de 13 anos. A previsão mais pessimista estima que apenas 10% dos estupros são notificados no Brasil. A mais “otimista”, aponta que cerca de 35% dos estupros são denunciados formalmente.

O estupro é um crime extremamente subnotificado e pouquíssimos casos resultam em condenação. Isso em qualquer lugar do mundo. E por que esse é um crime tão pouco denunciado? A revitimização da vítima que tem sua vida exposta e sofre com julgamentos que a culpam pela violência que sofreu é um ponto que influencia bastante nesse fenômeno.

A revitimização acontece em vários momentos: no atendimento na delegacia e no hospital, no judiciário, nas notícias que são escritas focando na vida íntima da vítima e nas falas da sociedade, em geral. E isso pode ser algo combatido por todos nós. Que tal repensarmos nossos discursos e ações?

1) Parar de dividir mulheres entre as boas e as vadias.

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Nem puta, nem santa, só mulher.

Dividir as mulheres em grupos se baseando no comportamento delas é uma forma de perpetuar a ideia de que algumas mulheres merecem sofrer violência sexual ou que as personalidades e hábitos das vítimas sejam vistos como justificativa pela violência que sofreram. Mulheres com vida sexual ativa, que frequentam boates e bares, que bebem, que usam roupas curtas, fumam, tem tatuagens, falam palavrões são consideradas menos dignas de respeito e são chamadas por muitos de vadias, vagabundas e outros termos correlatos. Todas as mulheres merecem respeito e essa divisão ajuda a manter como vigente uma ideia contrária ao respeito a todas.

2) Abandonar o uso de frases como “cu de bêbado não tem dono”.

Sim, uma frase comum como essa reproduz conceitos problemáticos sobre consentimento. É importante lembrar que não é possível consentir com o ato sexual estando desacordada ou incapaz de oferecer resistência. Uma pessoa que está alcoolizada ou drogada e perde o controle de suas faculdades mentais durante esse período não está apta a consentir. Violar o consentimento nesse caso consiste em estupro de vulnerável.

Ou seja, se você ouvir ou ler alguém falando algo como “Você quer transar com essa moça? É só embebedá-la que ela vai ficar facinha”, se manifeste, repudie. Deixe claro que não é algo legal, pelo contrário, é um ato criminoso.

3) Não assediar mulheres na rua e nem na internet. Não naturalizar o assédio.

O assédio nas ruas acontece através das “cantadas”. Muitos alegam que elas são elogios, mas é preciso alertar aqueles que tem o hábito de assediar e os que justificam esse assédio que a grande maioria das mulheres se sente incomodada, intimidada, constrangida e muitas vezes amedrontadas com essas falas.

O assédio virtual consiste em elogios agressivos, inconvenientes, envio de imagens de pênis não solicitadas e outras práticas como essas e incomodam e constrangem as mulheres.

Em ambas as situações, as mulheres são vistas como objetos e são invadidas com abordagens incômodas de desconhecidos ou conhecidos que não tem intimidade para tanto. Parece algo pequeno, mas não é, porque o assédio é consequência dos corpos das mulheres serem vistos como disponíveis para serem avaliados.

4) Não culpar a vítima.

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A culpa NUNCA é da vítima. Quando vocês vão entender isso?

A culpabilização da vítima expõe a vida da vítima, relativiza o ato do agressor e ignora que estupro não é algo que se justifica. Os julgamentos feitos do comportamento da vítima se baseiam em machismo: comentam sobre a roupa que a vítima usava, onde ela frequentava, a vida sexual dela, o horário em que ela estava fora de casa. Nada disso importa, porque a mulher deve ser livre e viver sua vida como bem entender. Julgar o comportamento da vítima e culpá-la pela violência que sofreu é retirar o estuprador do foco, sendo que ele é o criminoso e desacreditá-la.

5) Parar de falar coisas como “meu time estuprou o seu”, quando ele perder feio.

Estuprar não significa vencer, conquistar, ter um resultado incrível. Estuprar é um crime que fere a dignidade da vítima e não pode ser usado como uma metáfora de algo bom. Usar um termo que significa um ato de violência dessa forma é de uma falta de empatia tremenda e esvazia o significado da palavra como crime. Na verdade, pare de usar “estuprar” como metáfora para qualquer coisa, porque isso tira o foco do crime e banaliza a palavra.

6) Não fazer piadas sobre estupro.

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Gente que sabe que “piadas” de estupro não são engraçadas.

Não é engraçado, é uma falta de empatia tremenda e contribui para que a palavra e o ato sejam relativizados. As “piadas” geralmente se baseiam em “ela gostou” ou diminuem o ato como violência. Além disso, pessoas que querem ser engraçadas muitas vezes usam a ideia de que a mulher considerada feia por não estar nos padrões deve se sentir agradecida por alguém ter, por alguns momentos, a desejado. Esse discurso já foi usado até mesmo por deputado em Plenária para deslegitimar uma deputada. “Como alguém ia querer estuprar uma mulher tão feia?” e frases correlatadas ofendem a vítima e atuam também como uma forma de desacreditá-la. Nesse ponto é importante deixar claro que o estupro é um crime motivado pelo poder, pela violência, pela ideia de que o outro é inferior e não por desejo.

7) Parar de falar coisas como “ela tá precisando é de rola, alguém precisa dar um jeito nela, hein?” e “mal comida”.

Colocar o sexo com um pênis como algo que corrige uma característica considerada negativa numa mulher é reproduzir a lógica de correção através da punição. As mulheres que se relacionam com outras mulheres sofrem com uma violência específica chamada estupro corretivo e frases como essas reiteram a ideia-base dessa agressão. Essa violência específica se baseia na ideia de que o estupro faria a vítima parar de se relacionar com outras mulheres. Mulheres heterossexuais também podem ser vítimas de estupro corretivo, mas o viés é outro tipo de correção.

 8) Ensinar sobre consentimento para as crianças.

Desde a mais tenra infância é necessário ensinar noções de consentimento para crianças. Isso ajuda a criança a identificar a violência, caso aconteça com ela e também a evitar que elas cresçam sem noção sobre os limites do outro.

É importante que as pessoas parem de naturalizar violações de consentimento cometidos por meninos com frases como “esse é meu garanhão”. Repreenda a criança que beije seus coleguinhas sem que eles permitam, que mexam na saia de uma mulher, que toquem o seio de mulheres.

Dica: leiam o texto “30 maneiras de ensinar crianças noções de consentimento”.

9) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação que combata o machismo e demais preconceitos.

A educação é uma forma de enfrentar o machismo desde cedo e combatê-lo. Através dela, é possível desconstruir a ideia de que meninos tem que ser garanhões, dominadores e meninas tem que ser quietas e passivas. Quebrar essa lógica é bater de frente com ideias como “prendam suas cabritas que o meu bode está solto” e contribui até mesmo na luta contra a homofobia e lesbofobia, já que a socialização do homem garanhão se baseia também na heteronormatividade e no futuro resulta no apagamento e invisibilidade da sexualidade lésbica, por exemplo.

10) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação sexual de qualidade e focada no consentimento.

A educação sexual deve ser voltada a ensinar não só sobre prevenção de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, ela deve ensinar também noções de consentimento e a identificar a violência sexual.

11) Entender que projetos de lei que tentam dificultar o atendimento a vítima de violência sexual e a possibilidade de aborto faz parte da cultura do estupro.

Obrigar uma mulher a seguir com uma gravidez fruto de um estupro é uma revitimização. Dificultar que ela consiga abortar, caso queira, também. Além disso, colocar a necessidade do boletim de ocorrência acima dos cuidados quanto à saúde, como o Projeto de Lei 5069/13 quer, é de uma misoginia tremenda, já que isso se baseia em desacreditar a vítima e não em garantir a dignidade dela. Leia a entrevista com um obstetra especialista no aborto legal.

12) Combater a ideia de que o corpo da mulher é público.

Uma mulher acompanhada de um homem é vista como propriedade dele, disponível para ele. Uma mulher sozinha é vista como disponível para todos. Isso é objetificação, desumanização.

É preciso parar de naturalizar comportamentos como: durante uma investida numa mulher, insistir bastante ao ouvir apenas a negativa e só desistir se ela falar que tem namorado, está acompanhada. Mulheres tem direito a dizer não, mesmo solteiras, desacompanhadas. Respeitem o não sempre.

Além disso, pequenas coisas como “não tocar na barriga de uma grávida sem consentimento” já são formas de ir contra essa ideia. A mulher já é vista como propriedade de todos, a mulher grávida mais ainda. Não assediar mulheres, através de cantadas, também.

13) Não aceitar a naturalização do “quero uma novinha”.

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Gente que sabe que a “novinha” é uma criança.

A cultura de valorizar as “novinhas” é perigosa porque ignora que, segundo a lei, é estupro de vulnerável se relacionar sexualmente com menores de 14 anos. A lei considera que nessa idade, a pessoa é incapaz de consentir. Essa cultura é reiterada em diversas músicas populares, como “Nosso Sonho” do Claudinho e Bochecha e na pornografia.

14) Entender que estupros não ocorrem só entre desconhecidos.

Estupros ocorrem não só entre desconhecidos, num beco, de noite. Eles ocorrem muitas vezes dentro de casa, entre conhecidos, familiares e até namorados/esposos. O estupro cometido pelo companheiro é conhecido como “estupro marital” e é constantemente esquecido quando falamos sobre o assunto.

Em apenas 52 países, o estupro marital é um ato punível. Isso acontece porque a mulher é vista como propriedade e o sexo como uma obrigação conjugal. O estupro marital foi reconhecido pela ONU como uma violação de direitos humanos só em 1993. No Brasil, essa violência está incluída na Lei Maria da Penha.

15) Repensar o seu consumo de pornografia.

Sim, a indústria pornográfica reproduz a cultura do estupro com vídeos cada vez mais violentos em que não se percebe bem se o sexo é consentido ou não. Vídeos de estupros são listados em vários sites como vídeos pornográficos, porque a humilhação e a agressividade são colocadas na pornografia como lugares comuns do sexo. Lembrando que a pornografia é vista como uma educação sexual, principalmente para meninos e eles crescem com essas noções deturpadas do que é sexo.

16) Abandonar ideias como “espero que o estuprador vire mulherzinha na cadeia”.

O estupro não pode ser visto como uma forma de corrigir/punir, nem mesmo se essa lógica ir contra o estuprador. Isso ajuda a manutenção da cultura do estupro. Além disso, usar “virar mulherzinha” como sinônimo de ser estuprado diz muito sobre como nossa cultura vê a mulher como inferior e o corpo feminino como disponível.

Imagem de Indiretas Feministas e d’O Gato e o Diabo.

Veja o vídeo “De 30 não salva 1” do Canal Tititias aqui. O vídeo fala sobre como estupradores não são monstros/doentes/raras exceções.

Nota do Ativismo de Sofá sobre o “nem todos os homens”.

Texto de Thaís Campolina com contribuição de Kel Campos, do Ativismo de Sofá.

Originalmente publicado aqui.

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O silêncio que ecoa: a cultura do estupro no Brasil

O que é essa tal de cultura do estupro?

Quando a violência sexual torna-se algo usual dentro de uma sociedade, podemos usar o termo cultura do estupro para nomear tal abuso. É um conceito usado para indicar o quanto a violência contra a mulher é normalizada dentro da sociedade. A tolerância e a normalização acabam incentivando ainda mais as atitudes violentas. Entre os exemplos de comportamentos associados à cultura do estupro estão a culpabilização da vítima, a sexualização da mulher como objeto e a banalização da violência contra a mulher.

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Imagem retirada da página O Gato e o Diabo.

E aqui estamos falando do que é aceito como normal pela sociedade. Se você for mulher, tenho toda a certeza de que já passou por ao menos um episódio de abuso, seja na rua recebendo uma cantada, no transporte público com homens encostando em você ou mesmo dentro de um relacionamento quando a outra parte envolvida não soube aceitar um “não”.

Mas vamos à origem do termo cultura do estupro. Ele começou a ser utilizado na década de 70, quando feministas americanas estavam promovendo esforços para a conscientização da sociedade sobre a realidade do estupro.

Em “Sexual Violence Against Women: Putting Rape Research in Context” (Violência Sexual Contra a Mulher: Colocando a Pesquisa Sobre Estupro em Contexto), a norte-americana Alexandra Rutherford, doutora em ciência e psicologia e especialista em feminismo e gênero, explica que antes do movimento feminista norte-americano levantar o assunto para a discussão, pouco se falava sobre o assunto e, mais ainda, acreditava-se que estupro, violência sexual doméstica e incesto raramente aconteciam.

Em 1974, o conceito cultura do estupro foi usado pelas feministas norte-americanas Noreen Connel e Cassandra Wilson em “Rape: The First Sourcebook for Women” (Estupro: O Primeiro Livro de Consulta para Mulheres). Foi uma das primeiras vezes em que o termo foi incluído em um livro. Para as autoras, despertar o olhar para a cultura do estupro seria um modo de eliminar tal mal da sociedade.

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Para mim, despertar este olhar continua sendo mais do que importante, afinal, tal mal ainda não foi eliminado da sociedade. Mas voltemos ao ponto histórico: o tema começou a ganhar mais visibilidade no ano seguinte, em 1975, com o grupo New York Radical Feminists (Feministas Radicais de Nova Iorque), que produziu palestras e conteúdo que inspiraram cineastas e escritoras.

Dentre os trabalhos produzidos merecem destaque o documentário “Rape Culture” (Cultura do Estupro), de Margaret Lazarus e Renner Wunderlich, e o livro de Susan Brownmiller, “Against Our Will: Men, Women and Rape” (Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro). Segundo Susan, existe o “uso de estupro como uma expressão da masculinidade, indicação de mulheres como conceito de propriedade, e como um mecanismo de controle social para manter as mulheres na linha”.

Por um lado, se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua feminilidade. A mulher, quando nega uma relação sexual, é vista como uma cockteaser (quem provoca o pênis, mas, na hora H, não quer aceitá-lo). E é aí que aparece a culpabilização. As vítimas de estupro aprendem a se sentirem culpadas. “Alguma coisa elas fizeram pra merecer isso”, é o pensamento dominante.

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Para Susan, força, ou a ameaça da força, é o método mais usado contra a mulher. O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que as mulheres foram treinadas desde a infância a temer. Desde pequenas, não estamos em pé de igualdade nesta competição. Quem nunca ouviu que “brincar que lutinha é coisa de menino”, por exemplo? Enquanto eles são incentivados a buscar a força física, somos incentivadas a brincar de casinha.

O pensamento que reinava até então – e continua reinando em diversos lugares, convenhamos – era de que a mulher poderia ter contribuído com o estupro, caso não tivesse tentado resistir. Então, a obra de Susan foi precursora em abordar o estupro como sendo uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Ali, pela primeira vez em um livro, foi escrito o que o estupro realmente é: uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

Que fique bem claro então: estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens mantêm as mulheres em um estado de medo permanente. A coação é feita criticando as mulheres que não aceitam se submeterem a essas regras e culpando as vítimas de crimes sexuais. Com medo de serem hostilizadas e violentadas, acabam se submetendo à autoridade masculina para evitar mais violência.

Assim, ao observar a nossa sociedade nos dias de hoje, podemos claramente enxergar como a cultura do estupro continua viva. Da mesma maneira que antes, hoje a sociedade ainda leva em consideração a maneira como a vítima está vestida e até mesmo sua vida e hábitos. Se a mulher está vestida de forma tida como provocante, isso é considerado um atenuante para o agressor. Se ela tiver vários parceiros, beber demais ou voltar muito tarde para casa, também.

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No Brasil, Maria Cecilia de Mello e Souza, psicóloga e pós-doutoranda em antropologia social; e Leila Adesse, pediatra e doutoranda na área de Saúde da Mulher, são as organizadoras da obra mais abrangente sobre o tema publicada no país, “Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios”. O livro reúne pesquisas sobre a incidência e a natureza da violência sexual, os serviços um levantamento sobre a legislação e as políticas públicas.

As autoras relatam que no Brasil, a violência doméstica se destacou como foco no início do movimento feminista e das intervenções propostas. Tal mobilização se deu em função da brutalidade dos numerosos casos de violência conjugal, de um lado, e da impunidade dos agressores, de outro. Para elas, apenas recentemente (o livro foi publicado em 2005)a atenção se volta para outras formas de violência, como a sexual.

E é bem por aí mesmo. Um exemplo é que somente em 2002, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a violência sexual como todo ato sexual não desejado, ou ações de comercialização e/ou utilização da sexualidade de uma pessoa mediante qualquer tipo de coerção. Ainda que a demora seja evidente, ações como esta, mostram como o debate sobre as relações de gênero têm aumentado e vêm trazendo debates significativos envolvendo as áreas psicossociais, de saúde, econômica, política, jurídica e cultural.

As mulheres vêm obtendo êxito na conquista de certos direitos sociais e progredindo em direção à igualdade de gênero. Mas a desigualdade, no entanto, ainda não foi totalmente ultrapassada, sendo um reflexo da tradição patriarcal da sociedade.

Nos últimos dois anos, casos a sobre a violência contra a mulher vem enchendo cada vez mais os noticiários – como a pesquisa do Ipea (2014), que após correção indicou que 26% dos entrevistados consideram que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”; as cada vez mais frequentes denúncias de abusos sexuais cometidos em transportes públicos; e as campanhas contra as cantadas de rua –, tendo o termo cultura do estupro ganhado mais repercussão na mídia.

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Em todos esses exemplos, uma coisa fica nítida: as mulheres não são vistas como seres com vontade própria, são consideradas propriedade dos homens. Cabe às mulheres obedecerem às regras masculinas – ser feminina, falar baixo, aceitar ser vista como objeto sexual pois “homem é assim mesmo”. E quem não aceita as tais “regras masculinas” é culpada por tudo o que lhe vier a acontecer.

Um resumo bem didático sobre o que é a cultura do estupro? Uma estrutura onde a mulher é culpada por qualquer constrangimento sexual que venha a passar. Uma sociedade que acha normal uma mulher ser constrangida na rua por uma cantada; normal uma mulher ser estuprada por estar bêbada ou usando roupas curtas; normal uma mulher ser forçada a fazer sexo com o companheiro, afinal, ele é seu marido ou namorado; normal uma mulher ser vista apenas como objeto para satisfazer as vontades alheias; normal uma mulher ser intimidada por homens heterossexuais quando é lésbica, porque na verdade ela tem que aprender a gostar de homem.

E é exatamente essa normatização que precisa ser combatida.

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Grazi Massonetto é uma jornalista que ainda acredita na (r)evolução, tem a casa lotada de bichos e não gosta que ninguém venha lhe dizer o que deve fazer.

Originalmente publicada aqui, 05/10/2015.

Maternância: pois maternar também é um ato político!

Enquanto mães, e principalmente mães de meninos, temos o papel cansativo e fundamental de corrigir a família, os amigos e procurar, tentar dar uma educação que não os deixe utilizar o potencial de oprimir, delegado ao gênero masculino em sua construção social. Mães de meninas ficam com o fardo pesado de proteger as filhas, dos filhos dos outros… E isso é tão desumano e injusto.

Começa quando a gente engravida e não dá risada das brincadeiras “vai sair comendo todo mundo, hein?”, lembro que a primeira brincadeira assim que eu ouvi, foi da boca de uma mulher, que me disse “vai nascer namorando as menininhas já”, e eu disse “ou os menininhos né?”. Foi uma cara de horror misturada com espanto. Depois quando ele nasceu, era as brincadeiras sobre com quem que ele ia namorar, meu filho tinha 2 meses e as pessoas já especulavam com quem ele iria namorar… Além da erotização infantil absurda, ainda vinha um machismo pesado de acreditar que ele vai ser hétero, aliás, de determinar isso.

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Olha o Enzo vindo!

Sempre trabalhei com o Márcio sobre machismo, sobre o que machismo é, sobre ele ser machista, tivemos muita dificuldade no início, até ele entender que não era uma acusação, era uma reflexão. Que ele não tinha escolhido ser assim, ele foi condicionado. E então foram 9 meses de bate sobre gênero, além dos 4 anos que já haviam corrido, e o choque dele estar com uma mulher que simplesmente não media palavras e o corrigia, estivesse onde estivesse. Ainda trabalhamos isso nos dias de hoje, mas as coisas mais urgentes como homossexualidade, papel de gênero, identidade de gênero e hierarquia, já conseguimos entender e cuidar…. Ainda é um trabalho de formiguinha. Mas funciona.

Eu, enquanto mãe, sempre procurei rebater esses argumentos sobre sexualidade mostrando que ele pode ser o que ele quiser, inclusive gay, porque eu acredito que as vezes chocar, da mais resultado do que conversar com quem não quer ouvir – e não vai –, com as pessoas que estavam mais abertas, eu procurava dizer que não gostava que dissessem essas coisas sobre ele, e tampouco envolvendo a filha dos outros. Já acho um absurdo tremendo discutir a sexualidade de uma criança de 2 meses de idade, mas o mundo não é essa bolha maravilhosa que meu Facebook é: cheia de gente desconstruída e respeitosa.

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Amamentar também é um ato político, sim!

Ele foi crescendo, e eu como musicista, procurei ouvir com ele músicas (boas) de todos os gêneros musicais. A família ajudou, e ouvíamos desde batuques, até o funk dançante de Anitta, que eu fiz questão de ensina-lo a dançar, até músicas clássicas com direito a piano real, violoncelo real e violino real. Ouvi de muitas pessoas que eu queria transformar ele em gay, porque eu ouvia músicas pop com ele, e eu sou irônica por natureza, treteira de nascença, minha resposta sempre foi que teria companhia para ver minhas dicas favoritas e que tudo bem.

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Festa de 1 ano dessa lindeza no mundo, com o papai Márcio e a mamãe Daiane!

Agora, estamos na fase dos brinquedos e brincadeiras. O primeiro brinquedo, além dos mordedores que ele já teve e que eu comprei, foi a boneca do desenho animado favorito dele, a Luna. Antes disso ele tinha ganhado o Alípio do Cocoricó, e outros animais, mas todos ganhados por outras pessoas. Desde o começo eu analiso todos os desenhos que o Enzo assiste, e o mais recente é a Masha, quem souber onde adquirir uma Masha por menos de 60 conto me avisa. Ele também gosta do Palavrão Cantada, de batuques, de Trem da Alegria e Balão Mágico, rock clássico, e o baião da novela “Êta mundo bom!”, e sempre que ele dança não o inibimos. Deixamos ele brincar do que quiser. Uma das brincadeiras favoritas é cozinhar e limpar a casa. Ele me vê cozinhando desde que nasceu, ele sabe que eu gosto de cozinhar, adoramos “dar papa” para os bonecos, e ainda vou dar um jeito de comprar uma cozinha para ele. Dos dois lados da família, houve espanto provocado, mas o diálogo está aí para isso é se não resolve, a última palavra é minha e eu que determino.

Enzo vai para escolinha, e obviamente uma das primeiras coisas que irei conversar é sobre papel de gênero e sobre não limitar as crianças dentro de seus papéis de gênero criados a partir de uma perspectiva machista e opressora. Eu sou mãe de um menino, ele um dia será homem, nós, enquanto mães, pais, familiares e educadores, temos a responsabilidade de preparar esses filhos para o mundo e principalmente, para que respeitem o próximo, e mais ainda a próxima.

Nossa tarefa não pode ser individual, a responsabilidade não pode ser exclusiva da mãe, ela é uma responsabilidade de todos que convivem com crianças. Não vivemos num Brasil desconstruído como gostaríamos que fosse, as pessoas a nossa volta, desconhecem muitas coisas, estão aprendendo, e infelizmente, por mais cansativo que seja, esse é o nosso papel fundamental: o de informar, o de tentar. Atentando-se para não adoecer, claro.

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“Eu vejo meu filho brincando, sendo criança!  O que vai determinar o gênero ao qual ele se identifica, com certeza não é a liberdade que ele têm!”

Eu sou uma mãe feminista, uma nora feminista, uma cunhada feminista, uma filha feminista, uma neta feminista, uma irmã feminista, uma amiga feminista, uma mulher feminista. Eu não posso exercer este papel apenas no âmbito virtual ou junto de quem me entende, as vezes a gente sai da bolha e percebe que ninguém ta entendendo o que a gente fala. Precisamos falar em todos os espaços. Os meninos precisam tornar-se homens conscientes e que não exerçam esse potencial nojento delegado ao seu gênero. Para que nossos filhos, não abusem, não maltratem, não oprimam nossas filhas, as filhas dos outros, as outras mulheres e a nós mesmas.

Para que eles cresçam e possam ser homens felizes, seguros, plenos e livres de seus papéis de gênero. E que possam se identificar da maneira que se sentirem. E que possam respeitar a identificação dos outros… O outro.

Lutamos.
Tentamos.
Resistimos.

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Daiane Oliveira possui uma marca de slings chamada Ocatus, tem uma lojinha muito marota na Galeria do Rock, possui uma página linda chamada Maternância, e ainda é a mãe dessa lindeza que é o Enzo.

Mulheres indígenas e as formas modernas de violência contra a mulher

Apesar da música cantada por Baby do Brasil, sabemos que pouquíssimos dias são dias de índio. Cada vez mais ameaçados, acuados e tendo sua imagem constantemente representada como símbolo do atraso ou da ganância humana, os povos indígenas brasileiros são cada vez mais invisibilizados. Até mesmo neste blog, geralmente só falamos das mulheres indígenas em datas específicas. Porém, é um exercício para mim ir atrás das informações que não estão nas principais capas dos portais.

Cena do Documentário 'As Hiper Mulheres' que mostra um famoso ritual de canto feito apenas por mulheres da tribo indígena Kuikuro. O filme faz parte do projeto 'Vídeo nas Aldeias', criado por Vincent Carelli para introduzir a produção cinematográfica nas aldeias indígenas brasileiras.
Cena do documentário “As Hiper Mulheres” que mostra um ritual de canto feito apenas por mulheres da tribo indígena Kuikuro. O filme faz parte do projeto “Vídeo nas Aldeias“, criado pro Vicent Carelli para introduzir a produção cinematográfica nas aldeias indígenas brasileiras.

Tâmara Freire, no inicio desse mês, comentou sobre algo que chamou minha atenção: mulheres de tribos indígenas do Xingu estão desenvolvendo um projeto para discutir a violência contra as mulheres, vivenciada por elas com a objetivação de seus corpos e exibição não consentida de suas imagens.

A internet chegou as aldeias indígenas. E junto veio a pornografia. Os homens passaram a produzir imagens das mulheres xinguanas e compartilhá-las, sem o consentimento das próprias. O projeto ‘Yamurikumã Na Luta Por Seus Direitos’ tem como objetivo dar voz as mulheres do Xingu e, nesse caso específico, conscientizar os homens sobre os danos provocados pela divulgação de imagens das mulheres nas redes sociais.

Culturalmente, no Xingu, a nudez não é vista de forma agressiva, nem erótica. Há vários momentos em que integrantes da comunidade ficam nus ou participam de rituais e danças nus. Os próprios homens indígenas que compartilham as imagens passam a maior parte do tempo nus, mas não são expostos. No caso das mulheres, as fotos e vídeos são muitas vezes utilizados para difamar e prejudicar a imagem da mulher xinguana.

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Associação Yamurikumã: fortalecendo as mulheres do Xingu!

A partir da divulgação em redes sociais, pessoas de fora das comunidades tem acesso as imagens e passam a utilizá-las de diversas formas, muitas vezes desrespeitosas em relação as mulheres e as diferentes culturas indígenas. Isso tem sido mais uma forma de violência para as mulheres indígenas, que se veem excluídas de todo esse processo e ainda enfrentam o que é dito e feito com sua imagem. Numa matéria de Tâmara Freire para a Rádio EBC, Kaiulu Ialacuti conta que alguns povos chegaram ao ponto de cobrir as partes íntimas das meninas e adolescentes, durante cerimônias das quais elas tradicionalmente participam nuas, para evitar a produção de imagens erotizadas.

Relatos das mulheres indígenas também apontam uma frequência de comentários misóginos e violentos nas redes sociais. Como exemplo, contam que pegaram um trecho do documentário ‘As Hiper Mulheres‘, tiraram do contexto e passaram a divulgar que as mulheres xinguanas obrigam os homens a fazerem sexo. Isso foi sentido de forma muito negativa por essas mulheres. A maioria das imagens de mulheres indígenas na internet mostram nudez, enquanto a dos homens indígenas não. As mulheres indígenas há muito tempo são retratadas com ênfase em seu apelo sexual e elas querem mudar isso.

O projeto prevê a participação de convidadas para falar sobre violência contra as mulheres nas redes sociais e grupos de conscientização. Alguns povos, por iniciativa própria tem protegido as meninas, mas a maioria dos homens encara como uma brincadeira. Há uma luta árdua para que a violência psicológica seja reconhecida como violência nas aldeias.

Ao que parece, ter contato com a pornografia influenciou diretamente a maneira como os homens passaram a observar as mulheres e seus corpos. Essa associação pode não ser imediata e o compartilhamento das imagens remete a uma socialização masculina que utiliza os corpos das mulheres como objetos de troca. Isso são inferências que faço, já que a pornografia, especialmente aquela produzida pela indústria pornográfica, é um tema sempre presente nos debates feministas.

Acredito que a produção de imagens eróticas e pornográficas faz parte das vivências. Porém, essa situação também explicita como esses elementos podem ser usados para violentar a autonomia e autoestima das mulheres, o que muda são apenas os meios. Também percebe-se que as desculpas são as mesmas, até nas aldeias indígenas a violência é praticada sob o disfarce da brincadeira.

Texto escrito pela linda Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

“Você sabe o que é ser mulher na política?”

Você sabe o que é ser mulher na política? É gritar para ser ouvida. É ser interrompida o tempo todo. Ou até mesmo ser traduzida. É ter medo de voltar pra casa quando os camaradas prolongam a reunião sem notar que quem corre o perigo é a mina do grupo. É ser ofendida em processo disciplinar alheio. É ser diminuída. Ser vista como libertária e presa fácil para saciar o desejo masculino. É esperar que o feminismo “vem depois”.

E se é assim hoje, se esse é o meu relato de 2016, como posso desconsiderar os tempos sombrios de outrora?

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Passeata de mulheres no Rio de Janeiro em 1983. Foto de Almir Veiga/CPDOC JB.

Tortura é algo muito sério, dores e humilhações tão profundas que nem os relatos mais tristes podem mensurar. Muitas morreram para que hoje tenhamos espaço na luta revolucionária. Muitas lutaram e sobreviveram ao massacre para que ainda hoje possamos erguer nossa voz e nos posicionar politicamente. As escaras ainda não curaram. E nunca curarão, ouso dizer. E em pleno 2016 precisamos ouvir um defensor, eleito pelo povo, em nome de “Deus” e da “família”, exalta os responsáveis pela tortura de Dilma, que hoje calhou de ser presidenta, e de outras tantas mulheres vítimas dos anos de chumbo.

Por Jana Maroni Barroso, por Maria Célia Correia, por Rosa Kucinski Silva, por Olga Benário, por Nise da Silveira, por Patrícia Galvão, por Eneida de Moraes, por valentina da Costa, por Armanda Álvaro Alberto, por Maria Morais Werneck de Castro, por Nilda Carvalho, por Iara Iavelberg, por Ana Rosa Kucinski Silva e tantas outras, eu rechaço o discurso daquele que nem merece ser mencionado.

Em memória delas!

Por Kel Campos, em seu perfil no Facebook.

Eles ganharam. Por enquanto.

E o impeachment passou ontem na Câmara, por 367 votos favoráveis, 137 contra, e 7 abstenções.

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Creio que todo mundo esperava um placar mais apertado (eram necessários 342 votos para passar), então realmente foi uma enorme derrota, e uma ducha de água fria na militância, que fez manifestações por todo o país. Esses ativistas certamente estão arrasadxs.

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Mas José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, deu uma coletiva interessante à imprensa pouco depois do resultado, e mostrou que o governo não vai se deixar abater — nem a presidenta, que ele definiu como “forte, uma mulher de fibra. Vai continuar na luta, e espera assim motivar a militância (ou seja, grandes grupos que fazem parte da Frente Brasil ou que apoiam o governo, como CUT, MST, Movimento dos Sem Teto, UNE etc) a fazer o mesmo”. Já na semana passada, a CUT disse que organizaria uma greve geral se o impeachment fosse aprovado.

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Para José Eduardo Cardozo, “a decisão da Câmara foi puramente política.”

Antes de falar sobre os próximos capítulos, vou falar sobre a votação. Foi um show de horrores. A maior parte dos deputados dedicou o voto pelo impeachment à própria família. Vários citaram esposas, filhos, mães, como se estivessem numa cerimônia do Oscar, não como representantes de seus eleitores. Não era muito difícil ver o que cada um iria votar: alguns estavam enrolados na bandeira brasileira, outros tinham essas cores num lacinho na lapela.

Se restava alguma dúvida, era só eles abrirem a boca. Deputados que falavam em família (quase sempre a própria), deus, “esperança do povo brasileiro”, honra, amor à vida e tal, nem precisavam declarar o voto. A gente já sabia.

Ah, antes do início da votação houve o discurso dos líderes dos partidos. Foram muitos. O de Silvio Costa, do PTdoB-PE, foi um dos melhores. Em vez de dizer “excelentíssimo deputado” e todas aquelas hipocrisias, Costa virou pro Cunha e gritou: “Quem está tentando assumir o Brasil é o PCC, Partido da Corja do Cunha. Bandido! Ladrão!” Mais tarde, Costa chorou com o resultado. E a Câmara zombou do seu choro.

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Chico Lopes, deputado do PCdoB do Ceará ironizou perfeitamente a situação em que se encontrava.

Chico Lopes, deputado famoso do PCdoB aqui no Ceará, foi um dos mais aplaudidos, ao menos no Twitter. Ele ironizou perfeitamente: “Achei que vinha num encontro político, mas era o encontro dos bons maridos e dos bons pais. Voto não”.

Moema Gramacho, do PT-BA, também fez um discurso contundente no final, quando tudo já estava perdido: “Querem tirar Dilma para salvar Cunha, para salvar a si mesmos. Covardes!” Os deputados reaças quase não a deixaram falar.

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Deputada Moema Gramacho do PT-PA.

Esses mesmos deputados vaiaram uma deputada afastada por licença maternidade. Num lugar em que mulheres são apenas 10%, a vaia indica o respeito que esses homens têm por elas. Por nós.

Um dos filhotes de Bolsonaro justificou seu voto “pelos militares de meia quatro”. Pois é, aqueles que fecharam o Congresso em que você ganha o seu pão hoje, infeliz. Aqueles que torturaram a presidenta. Bolsonaro pai veio depois e, pra se destacar entre dezenas de deputados igualmente reaças, puxou o saco com louvor de Eduardo Cunha, e saudou um torturador, o Ustra.

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Deputado Jean Wyllys do PSOL.

Ocorreu um embate entre Bolso e Jean Wyllys que eu só fiquei sabendo depois: Jean cuspiu na direção do fascista. Jean fez um excelente discurso inflamado que lavou a alma de muitxs, e Bolso veio logo em seguida. Segundo o deputado do PSOL, o fascistoide agarrou seu braço e gritou várias ofensas homofóbicas. Jean reagiu com um cuspe (que aparentemente não o atingiu). Ele escreveu: “Eu não saí do armário para o orgulho para ficar quieto ou com medo desse canalha”.

Não concordo com o cuspe, mas sei como deve ser complicado pro Jean aguentar tantas provocações e insultos. Agora os bolsonazis querem cassar um dos melhores deputados da Câmara por falta de decoro parlamentar. Quero acreditar que não vão conseguir. Pô, Bolsonaro já quebrou o decoro quantas vezes?

Dois deputados, um deles Feliciano, cotado para ser vice-presidente na candidatura de Bolsonaro (nunca ganharão, quanto a isso podemos ficar tranquilxs), citaram o guru da extrema direita brasileira, Olavo de Carvalho. Um disse que Olavão tinha razão e que o PT configurava mesmo “perca (sic) total”.

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Deputado Feliciano, cotado para ser vice-presidente na candidatura do Bolsonaro. E não, não vão ganhar, óbvio.

Paulo Maluf, um dos maiores ladrões da história do Brasil, votou a favor do impeachment.

Paulinho da Força Sindical também, e jogou papel picado pro alto. Silvio Torres, do PSDB-SP, arrancou gargalhadas de metade do Twitter ao dizer que seu estado, SP, era governado há vinte anos por políticos honestos. Outro palhaço, Tiririca, mudou seu voto de última hora e disse sim. Não foi o único. Calcula-se que 25 deputados acabaram trocando de lado.

Provavelmente o pior discurso foi o de um deputado que votou pelo impeachment pra impedir que se ensinasse sexo pra crianças de 6 anos e que forçassem meninos da mesma idade a virar meninas. Porque esta definitivamente é uma ameaça real, certo? Teve um outro que glorificou seu estado por ter “a morena mais linda do Brasil”.

Enfim, tivemos uma ótima demonstração de por que este é considerado o Congresso mais conservador dos últimos 50 anos.

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Representatividade nula no Congresso, nada novo sobre o sol.

O que vai acontecer agora? Vai ter luta. É certo que Dilma não vai renunciar. O Senado terá até 11 de maio para aprovar a proposta de impeachment da Câmara. Isso deve ser aprovado por maioria simples, ou seja, 41 dos 81 votos possíveis. Eu acho quase impossível que isso não seja aprovado (a mídia calcula que 44 senadores são a favor). Daí Dilma é afastada do cargo e entra Michel Temer, com Cunha como seu vice.

A partir daí o Senado tem até 180 dias para analisar (e o governo poderá apresentar provas de sua inocência, o que não foi permitido na Câmara) e votar a proposta. Não é tão fácil assim: para o impeachment ser aprovado, são necessários dois terços dos votos, ou 54. Claro que, se o governo já não conseguiu convencer deputados usando seu poder político enquanto estava no governo, estando afastado fica ainda mais difícil. Mas o Senado pelo menos não tem Eduardo Cunha. Ok, tem Renan Calheiros, que não é muito melhor. Essa segunda votação é presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski.

Tem quem torça para que o STF se manifeste antes disso e determine que tudo isso que aconteceu na Câmara foi inconstitucional, mas duvido que o STF interfira na decisão de outro poder.

Se na segunda votação do Senado, que será lá por novembro, a oposição não tiver 54 votos, Dilma volta. Se Dilma for definitivamente impeachada, Temer assume o cargo em definitivo, e fica no poder até 2019. Se ele renunciar ou for tirado do cargo até o final deste ano, convocam-se eleições diretas em noventa dias (enquanto isso, assume o presidente da Câmara, que pelo jeito continuará sendo Cunha pra sempre).

Um outro detalhe sinistro: se Dilma for impeachada pelo Senado e Temer for tirado da presidência ou renunciar ou morrer em 2017 pra frente, sabe quem escolhe o novo presidente? O Congresso.

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Temer durante a votação do Congresso.

Minhas previsões? (que não valem muita coisa, porque eu costumo errar todas). Temer vai governar o país entre maio e novembro, e sabe-se lá quanto ele será capaz de entregar até lá (o céu é o limite). Obviamente, sua posse não representará o fim da corrupção (se bem que a Operação Lava Jato tem boas chances de ser encerrada) nem o fim da crise econômica, embora a mídia e o capital insistirão numa “união nacional”. Ele não será tirado do cargo, porque a elite que realmente manda no país estará muito feliz com ele.

O povo, no entanto, não ficará feliz ao ver que o país não vai melhorar nem um pouco com Temer (pelo contrário), e provavelmente iniciará uma campanha por eleições diretas já. A elite só aceitará essas eleições se, até lá, tiver cassado os direitos políticos de Lula, tornando-o inelegível pelo resto da sua vida. Se não, com a insatisfação popular diante do governo-tampão, Lula volta a ser um forte candidato, talvez saindo na frente na competição com Marina, alguém do PSDB (Aécio? Alckmin? Serra?), qualquer um do PMDB, e Bolsonaro (que nunca terá mais de 20% dos votos e nunca seria eleito num segundo turno de, arrisco dizer, qualquer cargo executivo).

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Desistir? Jamais!

De toda forma, são tempos sombrios. Mas nem tudo está acabado. Não ainda. E o sonho da elite de acabar com o PT (e com qualquer outro partido de esquerda) não vai se concretizar. E, se o PT não vai sumir, quem sabe toda essa crise o coloca finalmente no rumo certo — no rumo da esquerda?

Sim, eu sou uma otimista incorrigível.

Este texto é de Lola Aronovich, professora do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará e autora do blog feminista Escreva Lola Escreva.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Ontem o circo formado durante o processo da votação de Impeachment tornou-se motivo de piada nacional e internacionalmente já que antes de tudo, não existem efetivamente crimes de responsabilidade cometidos pela presidente. Os momentos surreais da votação, ficaram como diversão a parte, já que apenas afirmam que a veracidade, credibilidade do processo em andamento, é nula.

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Os confetes simbolizaram o Congresso Nacional em si: palhaços sem argumentos plausíveis e sem o mínimo conhecimento do trabalho que realizam, ou deveriam realizar pelo menos.

Entretanto um momento chamou muita atenção. Apenas para não perder o hábito das suas falas extremamente preconceituosas, durante o pronunciamento do seu voto Jair Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Ustra no decorrer do seu discurso. Ustra foi um dos torturadores mais temidos durante o período da Ditadura Militar e foi o único militar brasileiro a ser declarado “torturador” pela Justiça.

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Impossível resumir melhor, né senhor Deputado?

Muito antes da Comissão da Verdade em 2013, Ustra já havia sido manchete. A atriz Bete Mendes, que era deputada em 1985, encontrou-o como adido militar no Uruguai – e reconheceu nele seu torturador.

Ustra compareceu à Comissão e, apesar de ter um habeas corpus, respondeu a algumas perguntas. Disse que não cometeu nenhum crime e, em entrevistas, declarou que podem ter havido excessos, mas dos dois lados.

O dossiê da Ditadura inclui o nome dele e sob sua direção, ao menos 47 pessoas desapareceram ou morreram em São Paulo e existem denúncias de mais de 500 casos de tortura cometidos nas dependências do DOI-Codi no período em que ele atuava como comandante.

A crueldade de Ustra pode ser entendida com a leitura de diversos relatos de sobreviventes: Criméia Schmidt foi torturada mesmo grávida de 7 meses. Seus filhos foram levaram ao DOI-Codi e ouviram os gritos de diversos presos políticos sendo torturados e encararam uma mãe irreconhecível. Além disso, ao comando de Ustra, colocaram ratos na vagina de Dilma.

Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”.

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura.

Bolsonaro enalteceu ontem um torturador atroz, desumano, na Câmara dos Deputados. Exaltou o Golpe Militar de 1964 e foi ovacionado. Jorraram comentários à favor do Deputado, decorrentes da sua fala. Várias opiniões de cunho visivelmente conservadoras, apoiando e incitando ao ódio e a misoginia, não só contra a nossa presidente Dilma Rousseff, mas contra todas as mulheres que são representadas através do seu cargo.

Vários comentários ofensivos que circulam e persistem todos os dias na mídia e em rodas de conversa, reacionárias ou autodeclaradas progressistas. O cada vez mais aparente preconceito de gênero disfarçado de visão política. A negação de um período extremamente obscuro à democracia, no qual ainda existem cicatrizes que não podem e não devem ser jamais esquecidas.

A mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, é a da inexistência, da negação. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se aborda apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que alega que nada existiu, que a violência não deixou traços e muito menos indignação.

Não deveriam ser levadas em consideração, questões partidárias ou ideológicas quando citamos a Ditadura de 69. Mas sim, o fato de que várias pessoas pereceram friamente, injustamente e covardemente nos porões dessa mesma ditadura. Que milhares de mulheres foram violentadas e devem ser lembradas com respeito. Situação que visivelmente é desconsiderada, desacreditada e tratada com ironia publicamente.

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Flavia Penido em seu perfil no Facebook logo após o comentário ofensivo do Deputado Bolsonaro.

Hoje, anos após da ditadura brasileira, dos inúmeros muitos relatos dos sobreviventes, das violências incalculáveis que várias mulheres sofreram somente por serem mulheres e foram descritas, devem ser ouvidas e jamais esquecidas. Dar estima à história do que essas mulheres sofreram é reconhecer a nossa própria e das moças que virão depois de nós, pois, como mulheres e também feministas, permanecemos seguindo atrás de nossos direitos, ao mesmo tempo que lembramos e lutamos incansavelmente por justiça por todas que se sacrificaram.

Não passarão comentários machistas, misógino. Muito menos comentários que anseiam o retorno da Ditadura de 1964. A nossa história está viva e persiste. Nossos mortos e desaparecidos políticos jamais serão esquecidos.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Por Jessica Beauvoir, estudante de Direito da Universidade Federal de Rondônia, Feminista e moderadora da página O Gato e o Diabo.

Referências Bibliográficas:

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/08/opinion/1418042130_286849.html&gt;.

CARDOSO, Clarice. Quando a misoginia pauta as críticas ao governo Dilma. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/quando-a-misoginia-pauta-as-criticas-ao-governo-dilma&gt;.

LUCENA, Eleonora de. Minha História: Fui torturada em 1970 e denunciei o coronel Ustra. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1285003-minha-historia-fui-torturada-em-1970-e-denunciei-o-coronel-ustra.shtml&gt;.

SAFATLE, Vladimir. A verdade enjaulada. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/793/a-verdade-enjaulada-9436.html&gt;.