Pare de Culpar sua Amiga Pelo Relacionamento Abusivo Dela!

Sua amiga está em um relacionamento abusivo. Desesperada, você não entende como ela consegue ficar com aquela pessoa que faz tanto mal para ela. Poxa, ela costumava ser tão dona de si! Ela é tão bonita, tão inteligente, tem família, um emprego bacana. Na sua cabeça, ela só pode ser burra ou fraca para ficar com alguém assim. Você jamais deixaria barato…

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Jout Jout!

Deixa eu te falar várias coisas que talvez não tenham passado pela sua cabeça.

 

Coisa 1: Culpar sua amiga não funciona!

Sua amiga está sofrendo. A última coisa que ela precisa é de (mais) alguém dizendo o quanto ela é fraca e burra por estar com uma pessoa dessas.

Quando a gente está em um relacionamento abusivo, é muito difícil perceber. Porque a gente gosta daquela pessoa, fica muito complicado entender que ele ou ela nos faz mal. A gente releva: “ah, ele nem sempre é agressivo”, “ela é tão carinhosa às vezes”.

Mesmo quando a gente percebe que está em um relacionamento ruim, sair dele parece impossível. Porque a pessoa acha que, se sair, não vai conseguir arrumar ninguém nunca mais, que deveria agradecer por alguém aguentá-la, que ela é um lixo, etc.

Quando você fala para a sua amiga que ela é fraca e burra por estar em um relacionamento abusivo, você confirma os sentimentos ruins que a relação alimenta na cabeça dela. E isso faz com que o namoro dela pareça o único espaço seguro no mundo – afinal, mesmo tendo “uns probleminhas”, ela tem alguém que a aceita e que, às vezes, trata ela bem.

Tenha mais empatia!

Coisa 2: A mulher é criada para servir.

Quando você era pequena, aposto que sua mãe já disse para ficar bem comportadinha, porque fazer malcriação é coisa de menino. Aposto que você ganhou bonecas e que era elogiada por ser uma menina quietinha, e que, se não era quietinha, levava bronca por isso.

Aposto que você já ouviu, quando sentou de pernas abertas, que menina não senta assim, e que sentiu, ao entrar na adolescência, que sua aparência não agradava os meninos de alguma forma. Isso para não dizer que você ajudou sua mãe e sua avó a colocar e a tirar a mesa de almoço de domingo enquanto os tios e primos assistiam TV.

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A Culpa NUNCA é da Vítima!

Desde pequena, você foi ensinada a não dar escândalo. A não ser barraqueira. A não exagerar, seja na reclamação da cólica ou na denúncia daquele menino que te obrigou a ficar com ele na festinha do colégio (na qual, aliás, você não conseguiu dançar porque estava desconfortável demais de salto alto e saia curta).

 

Para sair na rua, você sempre pensa duas vezes antes de usar shorts, vestidos, saias, mesmo quando está um calor terrível. Você frequentemente usa jeans, também, para evitar olhares – não que isso ajude. Você foi coagida a aceitar e agradecer o que lhe foi dado (afinal, você é bem comportada).

Você também machuca sua pele e se expõe a doenças ao se depilar, entope os poros com maquiagem, passa algumas horas do seu dia cuidando dos cabelos, porque cabelo ruim não dá. Ah, e você precisava ter um namorado, afinal, é só disso que suas tias, avós e até sua mãe falam quando perguntam “e os namoradjenho?”.

E esse namorado não precisa ser perfeito, viu? Aliás, não pode escolher muito, senão fica pra titia. Tem que aceitar o que a vida te deu com tanto carinho. E, quando estiver namorando, tem que comparecer, senão a concorrência vence.

Não vou continuar com a lista, que é infinita. Mas, se você respondeu “sim” a algumas dessas perguntas, pare e pense: desde pequena, você é ensinada que deve ser submissa, obediente, comportada. Que não deve reclamar, porque a sua dor não é ruim o suficiente, e porque reclamar é falta de educação. E aí, voltando à amiga do relacionamento abusivo, como você pode chamá-la de burra e fraca, quando a submissão dela é a sua submissão, que foi ensinada e encorajada desde cedo?

Coisa 3: Poderia ser vocêzinha!

Empatia significa conseguir se colocar no lugar do outro e perceber que poderia ser você. Mas o bacana é conseguir fazer isso sem se colocar como uma super heroína à prova de tudo, que faria muito melhor, porque, afinal, você não é burra e fraca.

Frases como “se eu fosse você, nunca cairia nessa”, ou “eu, no seu lugar, dava um escândalo” soam extremamente depreciativas para a sua amiga em um relacionamento abusivo. Então, antes de soltar essas pérolas, pense: você faria isso mesmo? Sério? Seria tão invencível e racional que ignoraria o que você sente pelo(a) namorado(a) e cairia fora? Acho que não.

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Feito pela Marina França!

Ninguém é de ferro. E quer saber? Tudo bem. Porque é justamente essa mania de dizer que somos fortes que mantém sua amiga em um relacionamento abusivo. Somos seres humanos e temos fraquezas, e um primeiro passo é admitir isso e procurar ajuda.

Coisa 4: Como ajudar de verdade?

Primeiro, mostre o vídeo da Jout Jout sobre relacionamentos abusivos. Ele é super didático e ajuda a entender que algumas situações são, sim, problemáticas, e que se sentir mal nelas não é exagero e nem culpa da sua amiga. Esse vídeo abre os olhos.

Depois, quando a sua amiga entender que está em um relacionamento abusivo, mostre que você pode dar apoio. Em vez de critica-la, abrace, diga que você está ali para qualquer coisa, que ela pode te ligar a hora que for. Esteja lá por ela: seja um ponto de referência fora do relacionamento. Mostre que o(a) namorado(a) não é a única pessoa que entende/aceita/quer ficar com a sua amiga.

Ajude a aumentar a autoestima dela. Quando ela fizer algo bacana, elogie. Aponte traços incríveis dela, sejam eles físicos, intelectuais ou da personalidade dela.

Enfim, seja uma aliada, e não uma inimiga.

Originalmente publicado aqui.

10427295_1018183911529205_1470080480251778858_nHelô D’Angelo é uma linda, apaixonante e está quase terminando jornalismo! Ultimamente anda estagiando na Revista Fórum e da Superinteressante, porque o futuro dessa mina é extraordinário!

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A cultura do estupro

Não podemos perder tempo disputando a realidade. Um ato sexual que acontece sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Sempre.

“Uma rosa, por qualquer outro nome, teria o aroma igualmente doce.” Este trecho de Romeu e Julieta, a peça famosa de William Shakespeare, é frequentemente referenciado em artigos e debates sobre o peso e a volatilidade da linguagem.

Na cena em que esta fala se dá, Julieta – uma Capuleto – argumenta que não importa que Romeu seja um Montéquio, pois o amor que sente é pelo rapaz, e não por seu nome. A beleza da citação é o que ela implica: os nomes que damos às coisas não necessariamente afetam o que as coisas realmente são.

“Estupro, por qualquer outro nome, seria uma ação igualmente violenta.” Seria. Mas, ao contrário das rosas – que reconhecemos como rosas, por isso chamamos de rosas –, relutamos em reconhecer quando um estupro é estupro para poder então chamá-lo de estupro.

Estupro é a prática não consensual do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, configura estupro.

Se aceitarmos que esta é a definição de estupro, quantas já sofremos um, e quantos já cometeram um? Garanto que muita gente.

Consentimento é um conceito-chave para compreendermos e admitirmos que existe uma diferença entre sexo e estupro. Sexo é consensual, e se for adiante sem consentimento, deixa de ser sexo e passa a ser estupro.

A pessoa pode estar embriagada, vestida de forma sensual, pode já ter indicado querer sexo, pode estar nua e na cama e até mesmo já ter iniciado o sexo. No momento que ela declara não querer sexo, ou querer interromper o sexo, a ação deve parar. (E vale ressaltar que a ação não deve nem começar se a pessoa não estiver em condições de dizer sim…).

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É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa.

Precisamos levar a sério a asserção de que qualquer ato sexual que ocorre sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Apenas o sexo praticado com o consentimento das partes envolvidas pode ser chamado de sexo.

O ato sexual praticado sem consentimento não é sexo: é violência. É estupro. Não pode ser tão difícil que concordemos a este respeito. Se quando um não quer dois não brigam, quando um não quer dois não transam. Isso não é complicado de entender.

Ainda que a prática vitime homens e mulheres, historicamente as mulheres são as mais atingidas. A permanência deste padrão é garantida pelo que chamamos de cultura do estupro.

A violência contra a mulher é concreta, sistemática e balizada por números reais e dados científicos que são publicados por organizações competentes e sérias. O feminismo se ocupa, dentre outras coisas, de revelar esta violência com o intuito de reduzi-la – de extingui-la.

Que gastemos tempo disputando quais narrativas que articulam como a luta feminista contra a violência são mais ou menos eficazes é compreensível. Mas é uma perda total de tempo e energia disputar a realidade que fomenta estas narrativas.

Nossa realidade é a iniquidade, e tornar visível a ameaça constante da violência que mantém essa desigualdade (violência cujas manifestações mais agudas são o estupro e o feminicídio), é o que faz o feminismo.

Não deveríamos desperdiçar nenhum segundo evidenciando o que já está provado, mas, infelizmente, ainda precisamos fazer isso. É preciso que a sociedade passe a acreditar no que dizem as mulheres, e é urgente pararmos de disputar se estupro é ou não estupro. É sexo sem consentimento? É estupro.

A cultura do estupro é a cultura que normaliza a violência sexual. As pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não serem estupradas.

Cultura do estupro é duvidar da vítima quando ela relata uma violência sexual. É relativizar a violência por causa do passado da vítima ou de sua vida sexual. É ser mais fácil acreditarmos em narrativas de uma suposta malícia inerente das mulheres do que lidarmos com o fato de que homens cometem um estupro.

A cultura do estupro é visível nas imagens publicitárias que objetificam o corpo da mulher. Nos livros, filmes, novelas e seriados que romantizam o perseguidor. No momento que acatamos como normal recomendar às meninas e mulheres que não saiam de casa à noite, ou sozinhas, ou que usem roupas recatadas.

Todas essas ações revelam o que chamamos de cultura de estupro porque todas normalizam que a responsabilidade pelo estupro é da vítima. Não é. O protagonista do estupro é o estuprador.

A cultura do estupro é machista, e o machismo cria e mantém a cultura do estupro. É machismo partir do pressuposto de que o que uma mulher revela sobre estupro é invenção. É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa.

Na cultura machista que sustenta a cultura do estupro, a voz das mulheres é tomada como dissimulação. Na cultura machista as mulheres são malignas (olá Eva, bruxas e súcubos do imaginário coletivo), e os homens são eternas vítimas de nossas calúnias.

Mas os números não mentem, e se a manutenção da lógica machista depende da fantasia, o feminismo aponta para a realidade.

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Machismo mata.

Você conhece um estuprador? Eu conheço pelo menos três. Moços “de bem”, de família, que chegaram a frequentar a minha casa e que, por causa da cultura do estupro, acharam que fazer sexo em (não “com”, “em”) três amigas minhas enquanto elas dormiam porque estavam embriagadas era aceitável.

Elas estavam bêbadas. Elas estavam de roupas curtas. Mas elas definitivamente não estavam pedindo. Acreditar que elas estavam pedindo sexo por estarem alcoolizadas ou vestidas de um ou outro jeito é sucumbir à cultura do estupro.

Cultura de estupro é assunto de todos. Estupro é uma violência, e uma violação grave dos direitos humanos que atinge mulheres desproporcionalmente. Precisamos falar sobre cultura de estupro. Precisamos falar sobre machismo. Precisamos falar sobre misoginia. Precisamos falar sobre cultura patriarcal. Estas coisas estão conectadas. E precisamos falar sobre elas.

O feminismo existe bastante porque a voz das mulheres e as nossas falas são tão desvalorizadas socialmente que é preciso um movimento – militante e teórico – para dar conta de articular a realidade de forma convincente para uma sociedade propensa a não acreditar em nós.

Precisar explicar que qualquer ato sexual que acontece sem consentimento é estupro,ad infinitum, é evidência da permanência da cultura do estupro.

É exaustivo disputar a realidade com quem não quer enxergá-la porque não é diretamente afetado por ela. Por isso precisamos revelar que existe, sim, uma cultura que normaliza o estupro e a violência contra as mulheres. Falar é uma ação, denunciar o machismo é uma ação, revelar a misoginia é uma ação.

Pois falemos, então, com a linguagem adequada. A cultura do estupro existe e é visível, e sexo sem consentimento é estupro, ainda que alguns relutem em admitir isso. Mas uma rosa, por qualquer outro nome…

 

12316621_10156312964710068_5425964561407265867_nA linda e apaixonante Joanna Burigo é fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura, de quebra é colunista da Carta Capital, onde o texto foi publicado originalmente em 2 de junho de 2016.

16 formas de combater a cultura do estupro

A cada 11 minutos, uma pessoa denuncia um estupro no Brasil. 88,5% das vítimas de estupro são mulheres. 50,7% das vítimas de estupro tem menos de 13 anos. A previsão mais pessimista estima que apenas 10% dos estupros são notificados no Brasil. A mais “otimista”, aponta que cerca de 35% dos estupros são denunciados formalmente.

O estupro é um crime extremamente subnotificado e pouquíssimos casos resultam em condenação. Isso em qualquer lugar do mundo. E por que esse é um crime tão pouco denunciado? A revitimização da vítima que tem sua vida exposta e sofre com julgamentos que a culpam pela violência que sofreu é um ponto que influencia bastante nesse fenômeno.

A revitimização acontece em vários momentos: no atendimento na delegacia e no hospital, no judiciário, nas notícias que são escritas focando na vida íntima da vítima e nas falas da sociedade, em geral. E isso pode ser algo combatido por todos nós. Que tal repensarmos nossos discursos e ações?

1) Parar de dividir mulheres entre as boas e as vadias.

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Nem puta, nem santa, só mulher.

Dividir as mulheres em grupos se baseando no comportamento delas é uma forma de perpetuar a ideia de que algumas mulheres merecem sofrer violência sexual ou que as personalidades e hábitos das vítimas sejam vistos como justificativa pela violência que sofreram. Mulheres com vida sexual ativa, que frequentam boates e bares, que bebem, que usam roupas curtas, fumam, tem tatuagens, falam palavrões são consideradas menos dignas de respeito e são chamadas por muitos de vadias, vagabundas e outros termos correlatos. Todas as mulheres merecem respeito e essa divisão ajuda a manter como vigente uma ideia contrária ao respeito a todas.

2) Abandonar o uso de frases como “cu de bêbado não tem dono”.

Sim, uma frase comum como essa reproduz conceitos problemáticos sobre consentimento. É importante lembrar que não é possível consentir com o ato sexual estando desacordada ou incapaz de oferecer resistência. Uma pessoa que está alcoolizada ou drogada e perde o controle de suas faculdades mentais durante esse período não está apta a consentir. Violar o consentimento nesse caso consiste em estupro de vulnerável.

Ou seja, se você ouvir ou ler alguém falando algo como “Você quer transar com essa moça? É só embebedá-la que ela vai ficar facinha”, se manifeste, repudie. Deixe claro que não é algo legal, pelo contrário, é um ato criminoso.

3) Não assediar mulheres na rua e nem na internet. Não naturalizar o assédio.

O assédio nas ruas acontece através das “cantadas”. Muitos alegam que elas são elogios, mas é preciso alertar aqueles que tem o hábito de assediar e os que justificam esse assédio que a grande maioria das mulheres se sente incomodada, intimidada, constrangida e muitas vezes amedrontadas com essas falas.

O assédio virtual consiste em elogios agressivos, inconvenientes, envio de imagens de pênis não solicitadas e outras práticas como essas e incomodam e constrangem as mulheres.

Em ambas as situações, as mulheres são vistas como objetos e são invadidas com abordagens incômodas de desconhecidos ou conhecidos que não tem intimidade para tanto. Parece algo pequeno, mas não é, porque o assédio é consequência dos corpos das mulheres serem vistos como disponíveis para serem avaliados.

4) Não culpar a vítima.

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A culpa NUNCA é da vítima. Quando vocês vão entender isso?

A culpabilização da vítima expõe a vida da vítima, relativiza o ato do agressor e ignora que estupro não é algo que se justifica. Os julgamentos feitos do comportamento da vítima se baseiam em machismo: comentam sobre a roupa que a vítima usava, onde ela frequentava, a vida sexual dela, o horário em que ela estava fora de casa. Nada disso importa, porque a mulher deve ser livre e viver sua vida como bem entender. Julgar o comportamento da vítima e culpá-la pela violência que sofreu é retirar o estuprador do foco, sendo que ele é o criminoso e desacreditá-la.

5) Parar de falar coisas como “meu time estuprou o seu”, quando ele perder feio.

Estuprar não significa vencer, conquistar, ter um resultado incrível. Estuprar é um crime que fere a dignidade da vítima e não pode ser usado como uma metáfora de algo bom. Usar um termo que significa um ato de violência dessa forma é de uma falta de empatia tremenda e esvazia o significado da palavra como crime. Na verdade, pare de usar “estuprar” como metáfora para qualquer coisa, porque isso tira o foco do crime e banaliza a palavra.

6) Não fazer piadas sobre estupro.

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Gente que sabe que “piadas” de estupro não são engraçadas.

Não é engraçado, é uma falta de empatia tremenda e contribui para que a palavra e o ato sejam relativizados. As “piadas” geralmente se baseiam em “ela gostou” ou diminuem o ato como violência. Além disso, pessoas que querem ser engraçadas muitas vezes usam a ideia de que a mulher considerada feia por não estar nos padrões deve se sentir agradecida por alguém ter, por alguns momentos, a desejado. Esse discurso já foi usado até mesmo por deputado em Plenária para deslegitimar uma deputada. “Como alguém ia querer estuprar uma mulher tão feia?” e frases correlatadas ofendem a vítima e atuam também como uma forma de desacreditá-la. Nesse ponto é importante deixar claro que o estupro é um crime motivado pelo poder, pela violência, pela ideia de que o outro é inferior e não por desejo.

7) Parar de falar coisas como “ela tá precisando é de rola, alguém precisa dar um jeito nela, hein?” e “mal comida”.

Colocar o sexo com um pênis como algo que corrige uma característica considerada negativa numa mulher é reproduzir a lógica de correção através da punição. As mulheres que se relacionam com outras mulheres sofrem com uma violência específica chamada estupro corretivo e frases como essas reiteram a ideia-base dessa agressão. Essa violência específica se baseia na ideia de que o estupro faria a vítima parar de se relacionar com outras mulheres. Mulheres heterossexuais também podem ser vítimas de estupro corretivo, mas o viés é outro tipo de correção.

 8) Ensinar sobre consentimento para as crianças.

Desde a mais tenra infância é necessário ensinar noções de consentimento para crianças. Isso ajuda a criança a identificar a violência, caso aconteça com ela e também a evitar que elas cresçam sem noção sobre os limites do outro.

É importante que as pessoas parem de naturalizar violações de consentimento cometidos por meninos com frases como “esse é meu garanhão”. Repreenda a criança que beije seus coleguinhas sem que eles permitam, que mexam na saia de uma mulher, que toquem o seio de mulheres.

Dica: leiam o texto “30 maneiras de ensinar crianças noções de consentimento”.

9) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação que combata o machismo e demais preconceitos.

A educação é uma forma de enfrentar o machismo desde cedo e combatê-lo. Através dela, é possível desconstruir a ideia de que meninos tem que ser garanhões, dominadores e meninas tem que ser quietas e passivas. Quebrar essa lógica é bater de frente com ideias como “prendam suas cabritas que o meu bode está solto” e contribui até mesmo na luta contra a homofobia e lesbofobia, já que a socialização do homem garanhão se baseia também na heteronormatividade e no futuro resulta no apagamento e invisibilidade da sexualidade lésbica, por exemplo.

10) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação sexual de qualidade e focada no consentimento.

A educação sexual deve ser voltada a ensinar não só sobre prevenção de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, ela deve ensinar também noções de consentimento e a identificar a violência sexual.

11) Entender que projetos de lei que tentam dificultar o atendimento a vítima de violência sexual e a possibilidade de aborto faz parte da cultura do estupro.

Obrigar uma mulher a seguir com uma gravidez fruto de um estupro é uma revitimização. Dificultar que ela consiga abortar, caso queira, também. Além disso, colocar a necessidade do boletim de ocorrência acima dos cuidados quanto à saúde, como o Projeto de Lei 5069/13 quer, é de uma misoginia tremenda, já que isso se baseia em desacreditar a vítima e não em garantir a dignidade dela. Leia a entrevista com um obstetra especialista no aborto legal.

12) Combater a ideia de que o corpo da mulher é público.

Uma mulher acompanhada de um homem é vista como propriedade dele, disponível para ele. Uma mulher sozinha é vista como disponível para todos. Isso é objetificação, desumanização.

É preciso parar de naturalizar comportamentos como: durante uma investida numa mulher, insistir bastante ao ouvir apenas a negativa e só desistir se ela falar que tem namorado, está acompanhada. Mulheres tem direito a dizer não, mesmo solteiras, desacompanhadas. Respeitem o não sempre.

Além disso, pequenas coisas como “não tocar na barriga de uma grávida sem consentimento” já são formas de ir contra essa ideia. A mulher já é vista como propriedade de todos, a mulher grávida mais ainda. Não assediar mulheres, através de cantadas, também.

13) Não aceitar a naturalização do “quero uma novinha”.

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Gente que sabe que a “novinha” é uma criança.

A cultura de valorizar as “novinhas” é perigosa porque ignora que, segundo a lei, é estupro de vulnerável se relacionar sexualmente com menores de 14 anos. A lei considera que nessa idade, a pessoa é incapaz de consentir. Essa cultura é reiterada em diversas músicas populares, como “Nosso Sonho” do Claudinho e Bochecha e na pornografia.

14) Entender que estupros não ocorrem só entre desconhecidos.

Estupros ocorrem não só entre desconhecidos, num beco, de noite. Eles ocorrem muitas vezes dentro de casa, entre conhecidos, familiares e até namorados/esposos. O estupro cometido pelo companheiro é conhecido como “estupro marital” e é constantemente esquecido quando falamos sobre o assunto.

Em apenas 52 países, o estupro marital é um ato punível. Isso acontece porque a mulher é vista como propriedade e o sexo como uma obrigação conjugal. O estupro marital foi reconhecido pela ONU como uma violação de direitos humanos só em 1993. No Brasil, essa violência está incluída na Lei Maria da Penha.

15) Repensar o seu consumo de pornografia.

Sim, a indústria pornográfica reproduz a cultura do estupro com vídeos cada vez mais violentos em que não se percebe bem se o sexo é consentido ou não. Vídeos de estupros são listados em vários sites como vídeos pornográficos, porque a humilhação e a agressividade são colocadas na pornografia como lugares comuns do sexo. Lembrando que a pornografia é vista como uma educação sexual, principalmente para meninos e eles crescem com essas noções deturpadas do que é sexo.

16) Abandonar ideias como “espero que o estuprador vire mulherzinha na cadeia”.

O estupro não pode ser visto como uma forma de corrigir/punir, nem mesmo se essa lógica ir contra o estuprador. Isso ajuda a manutenção da cultura do estupro. Além disso, usar “virar mulherzinha” como sinônimo de ser estuprado diz muito sobre como nossa cultura vê a mulher como inferior e o corpo feminino como disponível.

Imagem de Indiretas Feministas e d’O Gato e o Diabo.

Veja o vídeo “De 30 não salva 1” do Canal Tititias aqui. O vídeo fala sobre como estupradores não são monstros/doentes/raras exceções.

Nota do Ativismo de Sofá sobre o “nem todos os homens”.

Texto de Thaís Campolina com contribuição de Kel Campos, do Ativismo de Sofá.

Originalmente publicado aqui.

O silêncio que ecoa: a cultura do estupro no Brasil

O que é essa tal de cultura do estupro?

Quando a violência sexual torna-se algo usual dentro de uma sociedade, podemos usar o termo cultura do estupro para nomear tal abuso. É um conceito usado para indicar o quanto a violência contra a mulher é normalizada dentro da sociedade. A tolerância e a normalização acabam incentivando ainda mais as atitudes violentas. Entre os exemplos de comportamentos associados à cultura do estupro estão a culpabilização da vítima, a sexualização da mulher como objeto e a banalização da violência contra a mulher.

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Imagem retirada da página O Gato e o Diabo.

E aqui estamos falando do que é aceito como normal pela sociedade. Se você for mulher, tenho toda a certeza de que já passou por ao menos um episódio de abuso, seja na rua recebendo uma cantada, no transporte público com homens encostando em você ou mesmo dentro de um relacionamento quando a outra parte envolvida não soube aceitar um “não”.

Mas vamos à origem do termo cultura do estupro. Ele começou a ser utilizado na década de 70, quando feministas americanas estavam promovendo esforços para a conscientização da sociedade sobre a realidade do estupro.

Em “Sexual Violence Against Women: Putting Rape Research in Context” (Violência Sexual Contra a Mulher: Colocando a Pesquisa Sobre Estupro em Contexto), a norte-americana Alexandra Rutherford, doutora em ciência e psicologia e especialista em feminismo e gênero, explica que antes do movimento feminista norte-americano levantar o assunto para a discussão, pouco se falava sobre o assunto e, mais ainda, acreditava-se que estupro, violência sexual doméstica e incesto raramente aconteciam.

Em 1974, o conceito cultura do estupro foi usado pelas feministas norte-americanas Noreen Connel e Cassandra Wilson em “Rape: The First Sourcebook for Women” (Estupro: O Primeiro Livro de Consulta para Mulheres). Foi uma das primeiras vezes em que o termo foi incluído em um livro. Para as autoras, despertar o olhar para a cultura do estupro seria um modo de eliminar tal mal da sociedade.

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Para mim, despertar este olhar continua sendo mais do que importante, afinal, tal mal ainda não foi eliminado da sociedade. Mas voltemos ao ponto histórico: o tema começou a ganhar mais visibilidade no ano seguinte, em 1975, com o grupo New York Radical Feminists (Feministas Radicais de Nova Iorque), que produziu palestras e conteúdo que inspiraram cineastas e escritoras.

Dentre os trabalhos produzidos merecem destaque o documentário “Rape Culture” (Cultura do Estupro), de Margaret Lazarus e Renner Wunderlich, e o livro de Susan Brownmiller, “Against Our Will: Men, Women and Rape” (Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro). Segundo Susan, existe o “uso de estupro como uma expressão da masculinidade, indicação de mulheres como conceito de propriedade, e como um mecanismo de controle social para manter as mulheres na linha”.

Por um lado, se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua feminilidade. A mulher, quando nega uma relação sexual, é vista como uma cockteaser (quem provoca o pênis, mas, na hora H, não quer aceitá-lo). E é aí que aparece a culpabilização. As vítimas de estupro aprendem a se sentirem culpadas. “Alguma coisa elas fizeram pra merecer isso”, é o pensamento dominante.

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Para Susan, força, ou a ameaça da força, é o método mais usado contra a mulher. O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que as mulheres foram treinadas desde a infância a temer. Desde pequenas, não estamos em pé de igualdade nesta competição. Quem nunca ouviu que “brincar que lutinha é coisa de menino”, por exemplo? Enquanto eles são incentivados a buscar a força física, somos incentivadas a brincar de casinha.

O pensamento que reinava até então – e continua reinando em diversos lugares, convenhamos – era de que a mulher poderia ter contribuído com o estupro, caso não tivesse tentado resistir. Então, a obra de Susan foi precursora em abordar o estupro como sendo uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Ali, pela primeira vez em um livro, foi escrito o que o estupro realmente é: uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

Que fique bem claro então: estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens mantêm as mulheres em um estado de medo permanente. A coação é feita criticando as mulheres que não aceitam se submeterem a essas regras e culpando as vítimas de crimes sexuais. Com medo de serem hostilizadas e violentadas, acabam se submetendo à autoridade masculina para evitar mais violência.

Assim, ao observar a nossa sociedade nos dias de hoje, podemos claramente enxergar como a cultura do estupro continua viva. Da mesma maneira que antes, hoje a sociedade ainda leva em consideração a maneira como a vítima está vestida e até mesmo sua vida e hábitos. Se a mulher está vestida de forma tida como provocante, isso é considerado um atenuante para o agressor. Se ela tiver vários parceiros, beber demais ou voltar muito tarde para casa, também.

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No Brasil, Maria Cecilia de Mello e Souza, psicóloga e pós-doutoranda em antropologia social; e Leila Adesse, pediatra e doutoranda na área de Saúde da Mulher, são as organizadoras da obra mais abrangente sobre o tema publicada no país, “Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios”. O livro reúne pesquisas sobre a incidência e a natureza da violência sexual, os serviços um levantamento sobre a legislação e as políticas públicas.

As autoras relatam que no Brasil, a violência doméstica se destacou como foco no início do movimento feminista e das intervenções propostas. Tal mobilização se deu em função da brutalidade dos numerosos casos de violência conjugal, de um lado, e da impunidade dos agressores, de outro. Para elas, apenas recentemente (o livro foi publicado em 2005)a atenção se volta para outras formas de violência, como a sexual.

E é bem por aí mesmo. Um exemplo é que somente em 2002, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a violência sexual como todo ato sexual não desejado, ou ações de comercialização e/ou utilização da sexualidade de uma pessoa mediante qualquer tipo de coerção. Ainda que a demora seja evidente, ações como esta, mostram como o debate sobre as relações de gênero têm aumentado e vêm trazendo debates significativos envolvendo as áreas psicossociais, de saúde, econômica, política, jurídica e cultural.

As mulheres vêm obtendo êxito na conquista de certos direitos sociais e progredindo em direção à igualdade de gênero. Mas a desigualdade, no entanto, ainda não foi totalmente ultrapassada, sendo um reflexo da tradição patriarcal da sociedade.

Nos últimos dois anos, casos a sobre a violência contra a mulher vem enchendo cada vez mais os noticiários – como a pesquisa do Ipea (2014), que após correção indicou que 26% dos entrevistados consideram que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”; as cada vez mais frequentes denúncias de abusos sexuais cometidos em transportes públicos; e as campanhas contra as cantadas de rua –, tendo o termo cultura do estupro ganhado mais repercussão na mídia.

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Em todos esses exemplos, uma coisa fica nítida: as mulheres não são vistas como seres com vontade própria, são consideradas propriedade dos homens. Cabe às mulheres obedecerem às regras masculinas – ser feminina, falar baixo, aceitar ser vista como objeto sexual pois “homem é assim mesmo”. E quem não aceita as tais “regras masculinas” é culpada por tudo o que lhe vier a acontecer.

Um resumo bem didático sobre o que é a cultura do estupro? Uma estrutura onde a mulher é culpada por qualquer constrangimento sexual que venha a passar. Uma sociedade que acha normal uma mulher ser constrangida na rua por uma cantada; normal uma mulher ser estuprada por estar bêbada ou usando roupas curtas; normal uma mulher ser forçada a fazer sexo com o companheiro, afinal, ele é seu marido ou namorado; normal uma mulher ser vista apenas como objeto para satisfazer as vontades alheias; normal uma mulher ser intimidada por homens heterossexuais quando é lésbica, porque na verdade ela tem que aprender a gostar de homem.

E é exatamente essa normatização que precisa ser combatida.

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Grazi Massonetto é uma jornalista que ainda acredita na (r)evolução, tem a casa lotada de bichos e não gosta que ninguém venha lhe dizer o que deve fazer.

Originalmente publicada aqui, 05/10/2015.

Mulheres indígenas e as formas modernas de violência contra a mulher

Apesar da música cantada por Baby do Brasil, sabemos que pouquíssimos dias são dias de índio. Cada vez mais ameaçados, acuados e tendo sua imagem constantemente representada como símbolo do atraso ou da ganância humana, os povos indígenas brasileiros são cada vez mais invisibilizados. Até mesmo neste blog, geralmente só falamos das mulheres indígenas em datas específicas. Porém, é um exercício para mim ir atrás das informações que não estão nas principais capas dos portais.

Cena do Documentário 'As Hiper Mulheres' que mostra um famoso ritual de canto feito apenas por mulheres da tribo indígena Kuikuro. O filme faz parte do projeto 'Vídeo nas Aldeias', criado por Vincent Carelli para introduzir a produção cinematográfica nas aldeias indígenas brasileiras.
Cena do documentário “As Hiper Mulheres” que mostra um ritual de canto feito apenas por mulheres da tribo indígena Kuikuro. O filme faz parte do projeto “Vídeo nas Aldeias“, criado pro Vicent Carelli para introduzir a produção cinematográfica nas aldeias indígenas brasileiras.

Tâmara Freire, no inicio desse mês, comentou sobre algo que chamou minha atenção: mulheres de tribos indígenas do Xingu estão desenvolvendo um projeto para discutir a violência contra as mulheres, vivenciada por elas com a objetivação de seus corpos e exibição não consentida de suas imagens.

A internet chegou as aldeias indígenas. E junto veio a pornografia. Os homens passaram a produzir imagens das mulheres xinguanas e compartilhá-las, sem o consentimento das próprias. O projeto ‘Yamurikumã Na Luta Por Seus Direitos’ tem como objetivo dar voz as mulheres do Xingu e, nesse caso específico, conscientizar os homens sobre os danos provocados pela divulgação de imagens das mulheres nas redes sociais.

Culturalmente, no Xingu, a nudez não é vista de forma agressiva, nem erótica. Há vários momentos em que integrantes da comunidade ficam nus ou participam de rituais e danças nus. Os próprios homens indígenas que compartilham as imagens passam a maior parte do tempo nus, mas não são expostos. No caso das mulheres, as fotos e vídeos são muitas vezes utilizados para difamar e prejudicar a imagem da mulher xinguana.

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Associação Yamurikumã: fortalecendo as mulheres do Xingu!

A partir da divulgação em redes sociais, pessoas de fora das comunidades tem acesso as imagens e passam a utilizá-las de diversas formas, muitas vezes desrespeitosas em relação as mulheres e as diferentes culturas indígenas. Isso tem sido mais uma forma de violência para as mulheres indígenas, que se veem excluídas de todo esse processo e ainda enfrentam o que é dito e feito com sua imagem. Numa matéria de Tâmara Freire para a Rádio EBC, Kaiulu Ialacuti conta que alguns povos chegaram ao ponto de cobrir as partes íntimas das meninas e adolescentes, durante cerimônias das quais elas tradicionalmente participam nuas, para evitar a produção de imagens erotizadas.

Relatos das mulheres indígenas também apontam uma frequência de comentários misóginos e violentos nas redes sociais. Como exemplo, contam que pegaram um trecho do documentário ‘As Hiper Mulheres‘, tiraram do contexto e passaram a divulgar que as mulheres xinguanas obrigam os homens a fazerem sexo. Isso foi sentido de forma muito negativa por essas mulheres. A maioria das imagens de mulheres indígenas na internet mostram nudez, enquanto a dos homens indígenas não. As mulheres indígenas há muito tempo são retratadas com ênfase em seu apelo sexual e elas querem mudar isso.

O projeto prevê a participação de convidadas para falar sobre violência contra as mulheres nas redes sociais e grupos de conscientização. Alguns povos, por iniciativa própria tem protegido as meninas, mas a maioria dos homens encara como uma brincadeira. Há uma luta árdua para que a violência psicológica seja reconhecida como violência nas aldeias.

Ao que parece, ter contato com a pornografia influenciou diretamente a maneira como os homens passaram a observar as mulheres e seus corpos. Essa associação pode não ser imediata e o compartilhamento das imagens remete a uma socialização masculina que utiliza os corpos das mulheres como objetos de troca. Isso são inferências que faço, já que a pornografia, especialmente aquela produzida pela indústria pornográfica, é um tema sempre presente nos debates feministas.

Acredito que a produção de imagens eróticas e pornográficas faz parte das vivências. Porém, essa situação também explicita como esses elementos podem ser usados para violentar a autonomia e autoestima das mulheres, o que muda são apenas os meios. Também percebe-se que as desculpas são as mesmas, até nas aldeias indígenas a violência é praticada sob o disfarce da brincadeira.

Texto escrito pela linda Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Não, vocês não vão nos calar!

Perdi a conta de quantas vezes bloquearam meu perfil por conta da minha página O Gato e o Diabo.

Todas as vezes denunciaram por conter nudez explicita, vocabulário impróprio e empoderamento feminista demais. Denúncias sobre assédio, violência contra a mulher, aqueles assuntos que escutamos tantas vezes que chegam a ser banalizados.  Machismo. Feminicídio. Nada novo sobre o sol.

Tenho um projeto chamado Assistência Jurídica para as Minas, que auxilia mulheres em situação de risco, sem condições financeiras, que está finalmente quase concluído. Mas, atuava de forma irregular. Sim é irregular explicar para uma mulher que não sabe como funciona o nosso sistema jurídico, é irregular guiar uma mulher à uma delegacia para fazer um Boletim de Ocorrência, é irregular guiar uma mulher até uma Defensoria Pública. Apresentei e pedi ajuda para o meu projeto na própria OAB da minha seccional e até agora não obtive retorno. A mesma OAB que move um projeto conta a nossa presidenta e se silencia mediante as violências que, nós mulheres, sofremos diariamente. Uma OAB machista, misógina, que resume o dia da mulher apenas a palestras cotidianas, chás e sorteios de idas ao salão de beleza e manicure. Com certeza, se as operárias russas do início do século XX recebessem bombons e flores em comemoração ao Dia da Mulher, talvez se sentissem ofendidas.

Nos meus poucos anos como estudante de direito e vários como feminista assumida e sobrevivente de um relacionamento extremamente abusivo advindo dos meus pais, percebi que é antiético ser mulher. É imoral ser mulher. Ativista e feminista, muito menos. Negra, nem cogitamos.

Vamos para a situação que causou esse odisseia?

A mulher posta o ocorrido do assédio que sofreu em Curitiba nas redes sociais. Homens postam fotos com várias analogias sobre a situação com iogurte, molho de tomate, cola branca, falando que é mentira, rindo, humilhando. Maynara Fanucci resumiu ontem todo meu sentimento: “A sociedade não tem espaço para mulheres que denunciam abusos e violências, só para as que se calam.”

É preciso que as pessoas saibam que mulheres são ameaçadas simplesmente por serem mulheres.

Não quero mais escutar que as mulheres são falsas, competitivas, se odeiam.

Não quero mais ser avaliada pela minha aparência, não apoio esse padrão que determinam. Não sustento mais que isso apague a autoestima de mulheres maravilhosas. Chega de “emagreça, embranqueça, alise, diminua, seque, suma”.

Não quero mais que o nosso trabalho seja reduzido, não seja reconhecido. Não merecemos ganhar menos, recebendo menos que os homens pelo mesmo posto.

Não quero nem aguento mais ouvir que licença maternidade é “férias”. Muito menos que toda a encargo da criação dos filhos está na nossa mão, toda a culpa é nossa.

Não quero mais suportar a violência obstétrica. Cansei de mais ouvir relatos de partos violentos, de mães abordadas como lixo, da desumanização da mulher grávida.

Cansei de ver mulheres morrendo pelas mãos de parceiros violentos, que não respeitam sua autonomia e muito menos a nossa existência.

Não aguento mais ter medo de voltar para casa à noite porque receio pela minha integridade física.

Não quero mais que nossa vida sexual determine nosso caráter. Não somos santas, não somos putas, somos pessoas com desejos.

Querem nos calar, mas não vão mais conseguir. Precisamos de mudanças e de empatia. Precisamos ser ouvidas e precisamos ser ouvidas agora. Nossos discursos e até nossas falas que muitas vezes foram deslegitimados, inúmeras vezes não garantiram a escuta de outras vozes. Mas precisamos ser ouvidas e precisamos ser ouvidas agora.

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Vamos juntas?

É o medo que os move. O que nos move tem que ser a coragem e a justiça em lutar pelo que é certo

Aquele tipo de texto difícil de escrever porque suas mãos ainda estão tremendo.

Eu só queria ir pra casa depois de uma longa espera no pronto atendimento. Pegar o ônibus, ir pra casa.

Entrei no tubo, o ônibus veio logo, estava cheio, horário de pico, mas sabem como é CENTENÁRIO/CAMPO COMPRIDO sempre tem espaço pra mais um.

Me ajeitei no cantinho, segurei a bolsa e só pensei na hora que ia poder tirar essa bota quente, pois Curitiba não decide quantas estações vai fazer em um dia.

Mas não é fácil assim, ir pra casa não é fácil assim. Se você é mulher e precisa pegar um ônibus lotado, com certeza, não vai ser fácil chegar em casa.

Guardei o celular na bolsa e foi então que eu percebi que ele estava ali. Parado bem nas minhas costas, aproveitando de cada curva para se esfregar em mim. Tentei dar um passo pra frente mas ele acompanhou, continuando encostado. Não bastasse ele começou a respirar muito forte por cima do meu ombro, chegando a gemer baixinho. Tentei empurra-lo com o cotovelo, ir para outro lugar, mas não tinha jeito. Ele continuou ali, se esfregando e gemendo. Precisei descer no tubo que seguia, mesmo não sendo o meu. Antes de sair o empurrei e disse a ele que era um velho nojento e deveria se envergonhar de agir desse modo em qualquer lugar que seja.

Ao descer percebi que ele não havia apenas se encostado e insinuado, ele havia ejaculado na minha saia, e então eu desabei.

Agora, chegando em casa, não estou feliz por tirar essas botas quentes. Agora, chegando em casa, estou limpando de mim mais um dia difícil de se chegar em casa.

Eu não quero mais ligar pra minha mãe chorando, eu não quero mais ter medo de andar na rua, eu não quero mais me culpar por ser a vítima, eu não quero mais ter que pensar no tamanho da minha saia antes de sair de casa, eu não quero ter que limpar a sujeira dos outros.

Desculpem o texto e a imagem, mas eu tô cansada, irritada e triste, e se eu tivesse a opção desejaria nunca ter que falar sobre essas coisas. Desejaria que essas coisas nunca acontecessem.

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Por Grazi Oliveira, que também teve seu perfil denunciado, porque uma mulher calada é bem mais aceita pela sociedade.

Por Jessica Beauvoir, moderadora d’O Gato e o Diabo.

Morte à deferência: sobre machismo, violência, autonomia e sororidade

A violência contra a mulher é histórica e, sobretudo, socialmente endêmica. De acordo com o Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres no Brasil, quase 5.000 mulheres são mortas por ano por um único motivo: ser mulher. Essa cifra coloca o Brasil em 5º lugar no ranking mundial dos países que mais matam mulheres de acordo com a Organização Mundial da Saúde, apresentando a taxa de 4,8 homicídios a cada 100 mil mulheres.

Na última década, diversas leis e políticas públicas foram criadas no Brasil com o intuito de diminuir a violência contra a mulher e promover a igualdade de gênero. No âmbito legislativo, em 2006, foi sancionada a Lei Maria da Penha (Lei 11.340), a partir de uma recomendação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos no caso Maria da Penha Maia Fernandes contra o Estado brasileiro, com o objetivo de diminuir a violência doméstica no país. Em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio (Lei 13.104), tipificando a conduta e elevando-a ao patamar de crime hediondo.

Atualmente, portanto, de acordo com o Código Penal, considera-se feminicídio o homicídio praticado contra a mulher por razões de condição de sexo feminino, sendo tal condição caracterizada em duas oportunidades segundo a lei: a) violência doméstica e familiar e b) menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Infelizmente, apesar dessas medidas, o índice de violência de gênero ainda é alto no Brasil. Ao analisar os dados, a raiz dessas violações, apesar de todas as peculiaridades de cada realidade enfrentada pelas diferentes mulheres no Brasil e ao redor do mundo, é a mesma: o machismo.

Machismo é a dominação sistemática das mulheres pelos homens por meio de instituições (nelas incluídas políticas, práticas, funções, posições, papeis), comportamentos e formas de pensar (estruturas conceituais), que conferem maior valor, privilégio e poder aos homens (ou ao que tem sido historicamente identificado como masculino).¹

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Se para Simone de Beauvoir ninguém nasce, mas se torna mulher, é certo que ocupar o lugar “mulher” dentro de uma sociedade estratificada sob o machismo é um ato de coragem e resistência. Dentro dessa sociedade doente pela violência e estruturada em premissas machistas, espera-se que as mulheres assumam papeis servis, pautados na candura, no falar baixo, no não contrariar, no se respeitar para ser respeitada, como se respeito fosse moeda de troca.

Desde a infância, os papeis sociais pré-estabelecidos são afirmados e consolidados de forma cruel: o menino, indivíduo forte, com autonomia, que não chora, que fala alto, que faz valer suas vontades versus a menina, submissa, que deve ser gentil, saber dos afazeres do lar, saber como agradar o sexo oposto.

E, se para dentro de casa os papeis começam a ser definidos, para fora da porta da frente estão outros meios de opressão que irão reafirmar estereótipos, opressões e relações abusivas: a indústria da moda e da beleza, que definem padrões absurdamente segregacionistas e opressores, a mídia, que aliena e desempodera, o mercado, que discrimina e que define como apto e eficiente aquele que não engravida.

A violência contra a mulher está em toda parte, seja no espaço público ou privado. É o atravessar a rua por medo de cruzar com um grupo de homens, é o não usar determinada roupa por medo de ser julgada ou, pior, abusada, é o ter que lidar com assédios públicos, é o ter medo de andar sozinha, de viajar sozinha, de ter que mentir que tem namorado para que outro homem se afaste (porque homem apenas respeita homem).

Para dentro de casa, os relacionamentos abusivos, os ciclos de extrema violência, são, na maior parte das vezes aceitos – conscientes ou não – pela mulher por não conseguir sair dessa relação. As razões para a manutenção desse status quo de submissão são diversas, desde a dependência emocional, a dependência financeira e, sobretudo, o medo.

O machismo mata. E mata todos os dias. A cada segundo que respiramos, uma mulher arbitrariamente para de respirar pelo simples fato de ser mulher.

É urgente a necessidade de quebra desse padrão de violência. É urgente que sejamos vistas como seres iguais e, sobretudo, que nós mesmas nos vejamos como iguais e nos empoderemos disso. É preciso que nós, mulheres, tomemos consciência do nosso papel, dos nossos direitos, tomemos para nós nossa autonomia e decidamos sobre nossas vidas, nossos corpos, nossas escolhas. É preciso que nós, mulheres, vejamos as outras mulheres como companheiras de luta, como irmãs, e, sobre isso, apenas uma palavra: sororidade. Juntas somos mais fortes. Juntas somos a revolução.

É essencial que o dia 8 de março não seja visto apenas como uma data comercial para celebrar a mulher com flores e presentes, mas como um dia para tomarmos consciência do quanto ainda é preciso avançar.

Esse texto é dedicado a todas as mulheres, companheiras de dor e de luta.

Notas e Referências:

[1] WARREN, Karen. Ecofeminism philosophy: a western perspective on what it is and why it matters. Rowmman & Littlefield Publishers, 2000.

Texto publicado no Empório do Direito, por Camila de Oliveira Koch– 16/03/2016.