“Cesárea também pode ser um parto humanizado”, simples assim.

Sabe quem de fato, consegue “azedar” mais o tal do “ativismo pelo parto humanizado”? Será o médico cesarista? Eu estou uns bons anos para dizer que não, hein…. Que somos nós, as próprias ativistas mesmo. Porque jogamos nosso tempo fora debatendo sobre coisas infrutíferas, com uma dinâmica ridícula que só sai do campo das “tretas maternas” ileso, quem concorda e quem tem “conhecimento científico o suficiente”.

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Olha o Enzo aí! 

Eu fui uma mãe “empoderada” a gestação inteira, eu li, eu estudei, peguei gosto, tanto que se eu fosse escolher algum curso hoje, eu escolheria obstetriz sem dúvida alguma. Isso não me garantiu um parto vaginal humanizado, isso me garantiu uma cesárea respeitosa ao menos. Porque digam o que quiserem dentro de grupo, bebê pélvico e família desesperada é fator mais que suficiente para abalar o psicológico de 98% das mulheres, infelizmente.

Agora, eu abrir discussão em grupo para falar sobre algo que exige conhecimento científico, pedindo opinião para mulheres mães, para somente alimentar meu próprio ego refutando os comentários de cada uma delas, alimentando e botando para funcionar uma dinâmica que só tende a deixar de fora quem não se encaixa, não é nada sobre ativismo, nem sobre acolher mulher alguma…. É sobre reunir num grupo apenas as mulheres que concordam com você, é apenas sobre segregar ainda.

Todo movimento de esquerda pode ter esse “privilégio” de se dividir… Quem não pode somos nós mães. Sabe porquê?! Porque pasme você, mas mães quando falamos em recorte, são uma das pessoas mais inviabilizadas, estereotipadas…

Cada uma que consegue entender que a importância de um bom parto não é postar foto e fazer relato e sim algo tão importante quanto de fato a saúde e uma vida saudável para ambos, é necessária. Cada mulher que é acolhida dentro de grupos, tenha tido a via de nascimento que for, ou até mesmo optado por ela, deve ser acolhida, direcionada, aconselhada. Deve ter o respeito a sua escolha garantido. Alimentar e endossar o coro para expor outras mães em grupos maternos, alimentar e endossar o coro para incentivar que uma mulher venda o carro para pagar o parto, não é sobre ativismo…. É só sobre ego ainda. É só sobre as suas necessidades projetadas noutra pessoa.

13432341_1062871417134560_1318584652662496885_nPasme se eu disser que antes uma parturiente que prefere sim, esperar o trabalho de parto, faz plano de parto consciente de que seu convênio ou o hospital público não vai bancar seu parto e ela terá sim de fazer cesárea, porque é o que sobra de opinião no mundo real para realidade dela, que pode ser que tenha problemas x e y e por isso não vai ser atendida em casa de parto, mas que joga com a realidade e faz um relato de parto que tem chances de ser acatado pela equipe que fará sua cesárea. E consciente aceita sua realidade lidando com as consequências dela, do que uma mãe que vende carro, se endivida, cria uma expectativa, planeja de um jeito e se vê do nada dentro do centro cirúrgico, com a barriga sendo aberta, despreparada, com um plano de parto que a equipe se quer vai ler, porque ele já deixa claro que é sobre parto natural, e a gestante fica lá… Chorando e com suas escolhas jogadas no lixo por uma coisa chamada: realidade.

 

“Nossa Dai, que desserviço, você está prejudicando o ativismo só porque você fez cesárea, você anda muito azeda, chata e desgostosa”.

Olha, e se eu falar para vocês que eu saí da bolinha da internet e fui viver?! Talvez as coisas não aconteçam do dia para noite, talvez necessite de mais tempo…. Talvez devamos começar instruindo a mãe a respeito do que é palpável para ela. Uma mãe de pélvico, de convênio, que não tem dinheiro para bancar equipe particular, nem viagem para hospital em outra cidade, tem que trabalhar com fatos e circunstâncias, ponto. Mais fácil ela ser aconselhada a criar um plano de parto que seja razoável para sua realidade, do que ela se imaginar indo para o meio do mato parir um pélvico desassistido.

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10 meses de vida! ❤

O ativismo pelo parto, assim como os demais movimentos de esquerda, anda precisando conversar com a realidade. Talvez esse seja o caminho de fazer as pessoas entenderem que a questão da violência obstétrica não está ligada apenas com a semana de gestação “permitida” para fazer cesárea ou não. E sim com um atendimento digno, respeitoso, e com muita informação de qualidade no pré-natal. E mais do que tudo isso junto: acolhimento de verdade e respeito pelas decisões. Mesmo se ela optar por uma cesárea, talvez seja realmente melhor para realidade dela. Para história dela. Para o que ela tem naquele momento.

Que o parto natural humanizado é a melhor via, eu não tenho dúvida. Agora se ele for possível para todas, ele com certeza não é. Então vamos falar individualmente sobre cada caso, sobre a realidade de cada mãe, acolher ela dentro das suas possibilidades, sem precisar lembrar ela (de maneira travestida de “informação”) de que ela é uma bosta por não ter conseguido aquilo.

Nós não temos o privilégio nem de nos separar, ou nos unimos, ou não se conquista NADA.

13240052_1042216402533395_8035195409455186292_nDaiane Oliveira já esteve aqui antes só que falando sobre Maternância, lindamente! Possui uma marca de slings chamada Ocatus, tem uma lojinha muito marota na Galeria do Rock, possui uma página linda chamada Maternância, e ainda é a mãe dessa lindeza que é o Enzo.

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Seu feminismo acolhe as mães?

13445675_605334102976000_2450825139618696984_nA mulher dessa foto é Daniele Toledo. Ela tinha 21 anos quando tudo aconteceu. Na época era bem humilde, e tinha dois filhos, um menino de 3 anos e de uma menina bebê chamada de Vitória Maria.
Seu martírio começou na noite de 28 de outubro de 2006, em um sábado. Daniele tentou levar sua filha Vitória para o Hospital Universitário de Taubaté, na época administrado pela Fundação Universitária de Saúde de Taubaté (Fust). A menina sofria de problemas de saúde, nunca diagnosticados com precisão, desde o nascimento.
A gravidez da Vitória foi complicada e ela acabou nasceu prematura, só retornando para casa com 2 meses e meio de idade. Mas logo começou a ter febres convulsivas e a partir do sexto mês o quadro se agravou muito. Entre idas e vindas, até sua morte, foram oito vezes em que ela ficou internada na UTI.
Naquele sábado, entretanto, por uma estranha ordem administrativa, a instituição médica não aceitou a menina, então acabaram indo para o Hospital Municipal Infantil.
Daniele não foi aceita com a filha no Hospital Universitário, já que em uma das noites em que passava na instituição com sua filha, foi estuprada por um estudante do curso de Medicina.
Sem opções, passaram a noite no hospital municipal. Vitória depois de muita luta, não resistiu, depois de 3 paradas cardiorrespiratórias.

danieletoledo-20100922Durante a segunda parada cardíaca de Vitória, Daniele foi presa em flagrante. Não teve nem um último contato com a filha, não viveu o luto. Saiu do hospital chorando, algemada, direto para a delegacia sem nem entender o que tinha acontecido, sem saber direito se sua filha estava realmente morta.A partir de um teste rápido os policiais concluíram precipitadamente que existiam indícios de cocaína na mamadeira, incriminando Daniele. No mesmo dia, parte da imprensa veiculava o caso, acusando-a injustamente de “o monstro da mamadeira”.Daniele enfrentou camburão, delegacia e cadeia pública. Foi levada a um presídio na cidade vizinha sem nem ao menos um julgamento, no qual foi espancada por outras detentas após descobrirem a falsa acusação através de um programa local de televisão. Adquiriu assim várias sequelas graves, que penduram até hoje: perda a visão e da audição do lado direito do corpo, sendo reduzida a capacidade de movimento do mesmo lado, além de ter constantes convulsões.
Permaneceu cerca de quarenta dias presa.
Quando o resultado dos testes saíram, sua situação finalmente mudou: foi finalmente comprovado que o pó era na verdade era um medicamento para a doença rara que sua filha tinha.
Daniele ainda move duas ações, e em ambas pede indenização. Uma, contra o Estado, por causa da injusta prisão, espancamento e de toda dor que sofreu. A outra, contra a Fust, por causa do episódio de violência sexual. O estuprador, na época estudante de medicina, nunca foi punido devido a “falta de provas” (Daniele não foi nem ao menos submetida a exame de corpo de delito, sua denúncia foi considerada “irrelevante”). Hoje o sujeito exerce sua “honrada profissão” normalmente, e sua identidade até o momento não foi nem revelada.
613056-970x600-1DIFERENTEMENTE DE DANIELE, O AGRESSOR SEXUAL NÃO TEVE DESCONFIANÇA POR PARTE DO ESTADO, que permaneceu incrédulo ao seu lado, desde o princípio.
Em agosto o caso completa 10 anos e mesmo a moça tendo provado sua inocência judicialmente, não consegue nem ao menos “provar isso para a sociedade”. Arrumou vários empregos, mas era demitida instantaneamente, logo após descobrirem seu caso. Seu filho mais velho hoje é adolescente, e Daniele é impedida de frequentar reuniões escolares e acompanhar o rapaz em suas atividades. Também não consegue ir a ambientes públicos pois é frequentemente reconhecida.
Além de sequelas físicas, Daniele toma remédios para tratar depressão e síndrome do pânico adquiridas após os acontecimentos.
Aos 31 anos, desempregada e morando de favor, seu livro contando sua vida sofrida foi lançado na primeira quinzena de junho intitulado “Tristeza em Pó”.
As causas da morte de Vitória até hoje permanecem desconhecidas, pois foram tratadas com descaso após Daniele ser inocentada (ela acredita que a menina morreu devido a negligência médica).
A história de Daniele é apenas uma das milhares que existem, de várias mulheres, que são vítimas da violência misógina estatal, que está se tornando cada vez mais visível, e não será mais ignorada.
Ela não será calada. Nós não seremos caladas.
Nenhuma será deixada para trás.
Seguiremos nossa luta, juntas.
Força Daniele, você não está sozinha!

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Por Jessica Beauvoir, idealista, feminista, completamente apaixonada por gatos. Cuida d’O Gato e o Diabo e continua não desistindo do Assistência Jurídica para as Minas.

“Inocentada da morte da filha de 1 ano, mãe narra sequelas da prisão.”  – Via Folha de S.Paulo.
“Mãe acusada de matar a própria filha relata injustiça em livro.”  – Via Livraria da Folha.
‘A médica disse que eu tinha matado a minha filha’ – Via Estadão.

Maternância: pois maternar também é um ato político!

Enquanto mães, e principalmente mães de meninos, temos o papel cansativo e fundamental de corrigir a família, os amigos e procurar, tentar dar uma educação que não os deixe utilizar o potencial de oprimir, delegado ao gênero masculino em sua construção social. Mães de meninas ficam com o fardo pesado de proteger as filhas, dos filhos dos outros… E isso é tão desumano e injusto.

Começa quando a gente engravida e não dá risada das brincadeiras “vai sair comendo todo mundo, hein?”, lembro que a primeira brincadeira assim que eu ouvi, foi da boca de uma mulher, que me disse “vai nascer namorando as menininhas já”, e eu disse “ou os menininhos né?”. Foi uma cara de horror misturada com espanto. Depois quando ele nasceu, era as brincadeiras sobre com quem que ele ia namorar, meu filho tinha 2 meses e as pessoas já especulavam com quem ele iria namorar… Além da erotização infantil absurda, ainda vinha um machismo pesado de acreditar que ele vai ser hétero, aliás, de determinar isso.

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Olha o Enzo vindo!

Sempre trabalhei com o Márcio sobre machismo, sobre o que machismo é, sobre ele ser machista, tivemos muita dificuldade no início, até ele entender que não era uma acusação, era uma reflexão. Que ele não tinha escolhido ser assim, ele foi condicionado. E então foram 9 meses de bate sobre gênero, além dos 4 anos que já haviam corrido, e o choque dele estar com uma mulher que simplesmente não media palavras e o corrigia, estivesse onde estivesse. Ainda trabalhamos isso nos dias de hoje, mas as coisas mais urgentes como homossexualidade, papel de gênero, identidade de gênero e hierarquia, já conseguimos entender e cuidar…. Ainda é um trabalho de formiguinha. Mas funciona.

Eu, enquanto mãe, sempre procurei rebater esses argumentos sobre sexualidade mostrando que ele pode ser o que ele quiser, inclusive gay, porque eu acredito que as vezes chocar, da mais resultado do que conversar com quem não quer ouvir – e não vai –, com as pessoas que estavam mais abertas, eu procurava dizer que não gostava que dissessem essas coisas sobre ele, e tampouco envolvendo a filha dos outros. Já acho um absurdo tremendo discutir a sexualidade de uma criança de 2 meses de idade, mas o mundo não é essa bolha maravilhosa que meu Facebook é: cheia de gente desconstruída e respeitosa.

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Amamentar também é um ato político, sim!

Ele foi crescendo, e eu como musicista, procurei ouvir com ele músicas (boas) de todos os gêneros musicais. A família ajudou, e ouvíamos desde batuques, até o funk dançante de Anitta, que eu fiz questão de ensina-lo a dançar, até músicas clássicas com direito a piano real, violoncelo real e violino real. Ouvi de muitas pessoas que eu queria transformar ele em gay, porque eu ouvia músicas pop com ele, e eu sou irônica por natureza, treteira de nascença, minha resposta sempre foi que teria companhia para ver minhas dicas favoritas e que tudo bem.

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Festa de 1 ano dessa lindeza no mundo, com o papai Márcio e a mamãe Daiane!

Agora, estamos na fase dos brinquedos e brincadeiras. O primeiro brinquedo, além dos mordedores que ele já teve e que eu comprei, foi a boneca do desenho animado favorito dele, a Luna. Antes disso ele tinha ganhado o Alípio do Cocoricó, e outros animais, mas todos ganhados por outras pessoas. Desde o começo eu analiso todos os desenhos que o Enzo assiste, e o mais recente é a Masha, quem souber onde adquirir uma Masha por menos de 60 conto me avisa. Ele também gosta do Palavrão Cantada, de batuques, de Trem da Alegria e Balão Mágico, rock clássico, e o baião da novela “Êta mundo bom!”, e sempre que ele dança não o inibimos. Deixamos ele brincar do que quiser. Uma das brincadeiras favoritas é cozinhar e limpar a casa. Ele me vê cozinhando desde que nasceu, ele sabe que eu gosto de cozinhar, adoramos “dar papa” para os bonecos, e ainda vou dar um jeito de comprar uma cozinha para ele. Dos dois lados da família, houve espanto provocado, mas o diálogo está aí para isso é se não resolve, a última palavra é minha e eu que determino.

Enzo vai para escolinha, e obviamente uma das primeiras coisas que irei conversar é sobre papel de gênero e sobre não limitar as crianças dentro de seus papéis de gênero criados a partir de uma perspectiva machista e opressora. Eu sou mãe de um menino, ele um dia será homem, nós, enquanto mães, pais, familiares e educadores, temos a responsabilidade de preparar esses filhos para o mundo e principalmente, para que respeitem o próximo, e mais ainda a próxima.

Nossa tarefa não pode ser individual, a responsabilidade não pode ser exclusiva da mãe, ela é uma responsabilidade de todos que convivem com crianças. Não vivemos num Brasil desconstruído como gostaríamos que fosse, as pessoas a nossa volta, desconhecem muitas coisas, estão aprendendo, e infelizmente, por mais cansativo que seja, esse é o nosso papel fundamental: o de informar, o de tentar. Atentando-se para não adoecer, claro.

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“Eu vejo meu filho brincando, sendo criança!  O que vai determinar o gênero ao qual ele se identifica, com certeza não é a liberdade que ele têm!”

Eu sou uma mãe feminista, uma nora feminista, uma cunhada feminista, uma filha feminista, uma neta feminista, uma irmã feminista, uma amiga feminista, uma mulher feminista. Eu não posso exercer este papel apenas no âmbito virtual ou junto de quem me entende, as vezes a gente sai da bolha e percebe que ninguém ta entendendo o que a gente fala. Precisamos falar em todos os espaços. Os meninos precisam tornar-se homens conscientes e que não exerçam esse potencial nojento delegado ao seu gênero. Para que nossos filhos, não abusem, não maltratem, não oprimam nossas filhas, as filhas dos outros, as outras mulheres e a nós mesmas.

Para que eles cresçam e possam ser homens felizes, seguros, plenos e livres de seus papéis de gênero. E que possam se identificar da maneira que se sentirem. E que possam respeitar a identificação dos outros… O outro.

Lutamos.
Tentamos.
Resistimos.

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Daiane Oliveira possui uma marca de slings chamada Ocatus, tem uma lojinha muito marota na Galeria do Rock, possui uma página linda chamada Maternância, e ainda é a mãe dessa lindeza que é o Enzo.

As mídias sociais estão protegendo os homens de menstruação, leite materno e pêlos corporais

Texto de Jessica Valenti. Publicado originalmente com o título: “Social media is protecting men from periods, breast milk and body hair” no site do jornal The Guardian em 30/03/2015. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

O Instagram deletou uma foto da artista Rupi Kaur que mostrava um pouco do seu sangue menstrual.

Quando a sociedade aceitará os corpos das mulheres?

tamponsarestilltabooAbsorventes internos ainda são um tabu online. Foto: Autor Desconhecido/Encontrada na Biblioteca de Imagens do The Guardian.

Há uma previsível fórmula da mídia para determinar como as imagens online de mulheres devem ser. Seios em biquínis pequenos são legais (geram curtidas, precisamente), mas seios acompanhados de bebês são questionáveis. Mulheres vestindo quase nada é lugar comum, mas se você tiver um tamanho maior que 40, sua conta pode ser deletada. Closes fechados em bundas de mulher e vaginas mal cobertas são agradáveis, desde que essas partes do corpo estejam depiladas.

E agora, em uma polêmica que mais uma vez reúne tecnologia, arte, feminismo e sexo, o Instagram está sob fogo cruzado por ter removido um autoretrato da artista Rupi Kaur, que mostrava uma pequena quantidade de seu sangue menstrual. Aparentemente, estar menstruada viola os termos de serviço do site.

A mensagem geral para as mulheres não poderia ser mais óbvia: imagens sexy são apropriadas, mas imagens de corpos de mulheres fazendo coisas que normalmente corpos de mulheres fazem não são. Ou, para explicar de forma mais grosseira: apenas imagens de mulheres com as quais os homens queiram transar, por favor.

Como pontuou Kaur em sua conta no Tumblr, o Instagram está cheio de fotos de meninas menores de idade que são “objetificadas” e “pornificadas”.

“Eu não vou pedir desculpas por não alimentar o ego e o orgulho da sociedade misógina que poderá ter meu corpo em roupas íntimas mas não se sentirá a vontade com um pequeno vazamento”, ela escreveu.

Porque, realmente, é difícil imaginar as mulheres sentindo-se ofendidas por fotos de amamentação, contornos de biquíni despenteados ou sangue menstrual — eventos assim são uma segunda-feira normal para várias de nós. São os homens que os gigantes das mídias sociais estão “protegendo” — homens que cresceram vendo imagens higienizadas e sexualizadas de corpos femininos. Homens que foram ensinados pela cultura pop, pela publicidade e além a acreditarem que os corpos das mulheres estão lá para eles. E, se eles têm que ver uma mulher que é outra coisa que não magra, sem pêlos e pronta para o sexo — bem, traga um copo com água e açúcar.

Como Kaur escreveu: “A misoginia deles está pingando”.

O lado positivo, é claro, é que a própria natureza das mídias sociais tornou mais fácil para as mulheres apresentarem um conjunto mais diversificado de imagens, de como os corpos femininos podem parecer e significar. Selfies, por exemplo — consideradas por alguns como o ápice da frivolidade e vaidade — estão agora sendo elogiadas por acadêmicas e artistas feministas como uma maneira das mulheres “tomarem posse do olhar” e oferecem um novo senso de controle para as mulheres, como sujeitos em vez de objetos.

Quando temos o poder de criar nossas próprias imagens em grande quantidade, nós temos o poder de criar uma nova narrativa — uma que voa de encontro a narrativa que o mainstream gostaria de nos fazer parecer e representar.

A favor do Instagram, a empresa restaurou a imagem de Kaur após protestos — assim como o Facebook mudou suas normas para permitir imagens de “mulheres engajadas na amamentação ou mostrando as cicatrizes após uma mastectomia”. As empresas de tecnologia estão começando a entender que se querem colocar o poder das imagens nas mãos de seus usuários vão ter que ficar tranquilas com as mulheres sendo totalmente humanas — não apenas imagens de um espelho que a cultura pop quer que sejamos.

Quanto às pessoas que estão escandalizadas com os corpos das mulheres e suas funções naturais: Você não tem que “curtir”, mas você vai ter que conviver com isso.

Ei, moça! E se eu te contar que você é sim Feminista?

Quem somos, antes de tudo?

Mulheres, estudantes, batalhadoras, sonhadoras e que jamais desistem e baixam a cabeça! Somos milhares, andamos juntas!

O feminismo não é uma busca por privilégios ou concessões, mas sim uma luta por protagonismo. Nós mulheres queremos ter o direito de decisão para deixarmos de ser consideradas cidadãs de segunda classe. A nossa emancipação não será um conjunto de “concessões generosas” de homens, mas sim uma revolução no processo de tomada de decisões. Quando reivindicamos o direito de decidir, criticar e nos organizar estamos afirmando a nossa universalidade como sujeitos políticos.

O nosso feminismo luta por mudanças, por transformações e estas são possíveis apenas quando os indivíduos e em seguida a cultura assumem a necessidade de reeducar seus valores, quando assumem que necessitam de uma mudança brusca de mentalidade.

O feminismo já obteve muitos sucessos, mas ainda não rompemos a cultura política da concessão. Os nossos conquistados ainda não são expressão de um empoderamento, mas sim políticas de redução de danos.

Ser feminista não é bom ou ruim. Ser feminista é necessário. Não precisamos ir até o Oriente Médio para ver a sua necessidade. Não precisamos ir até tribos africanas. Não precisamos ir ao sertão do nordeste. Não precisamos ir até a periferia de São Paulo. Não precisamos nem ao menos sair dos nossos bairros. O famigerado machismo que delimita, que agride, que marginaliza, que ofende, que diminui, mora ao lado.

E agora, quem poderá nos defender? O feminismo!

O mesmo feminismo que nos tornou civilmente capazes e independentes diante da lei. O mesmo feminismo que nos deu o direito ao voto. O mesmo feminismo que segue lutando diariamente por uma sociedade mais justa e igualitária para mulheres, mães, filhas, trabalhadoras e homens também! É a hora de falarmos sobre igualdade entre meninos e meninas. É hora de falarmos que meninas podem jogar bola e ter carrinhos e que meninos podem cuidar de bonecas.

É como diz o lindo livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (leiam, ele é indispensável): Sejamos todos feministas. E o mundo será melhor a cada dia. Pode apostar!

Primeira postagem, feita com toda honra e amor do mundo, por Jessica Beauvoir, moderadora da página O Gato e o Diabo.

Imagem emprestada do Blogueiras Feministas.

Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.

Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.

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