“Então, quem quer namorar a gorda?”

Outro dia, conversando com uma amiga gorda sobre adolescência e namoricos, confessei algo que hoje acho terrível: antes, quando eu gostava de alguém, me imaginava com a pessoa, criava cenas e situações de nós juntos, ou seja, sonhava acordada, assim como todo mundo fazia, né. Até aí tudo ótimo. Só que em todas essas fantasias eu não era eu; eu era uma versão magra de mim. A fantasia nunca acontecia no presente, mas dali a alguns meses, que seria o tempo de eu emagrecer. Toda vez que lembro disso tenho vontade de voltar no passado e abraçar a minha eu adolescente. Para minha surpresa, a minha amiga disse que fazia a mesma coisa. Conversei com outras amigas gordas e elas admitiram o mesmo. Aí concluí que nem na nossa imaginação, nós, mulheres gordas, somos livres para amar e sermos amadas.

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Ilustração por Marina Sader a partir de foto do Projeto Cada Uma da modelo Jacqueline Jordão.

Primeiro de tudo: namorar, achar um par, a cara metade e essa coisa toda que crescemos acreditando, não é necessariamente a verdade absoluta. Namorar não é sinônimo de felicidade. A única pessoa que pode validar você, que “te completa”, “que pode salvar você” e que tem obrigação de te amar é você mesma. O amor próprio é o mais importante de tudo e um dos mais difíceis, ainda mais quando você é gorda ou fora de qualquer padrão. A gordofobia agride a gente todos os dias, ela está ao nosso redor o tempo todo, e se manter acima disso, conseguir passar por cima e ser feliz com você mesma do seu jeito é muito difícil, porém, fundamental. Dito isso, podemos, sim, ter desejos, vontades e sentimentos. Temos todo o direito de querer afeto. Independentemente da ideologia romântica que nos é enfiada goela abaixo, afeto é bom, é gostoso e se você quer ter isso, você tem todo o direito do mundo de alcançar esse objetivo, não importando o tamanho do seu corpo. Mas aí surge a pergunta: quem quer namorar a gorda?

Eu já ouvi mais vezes do que eu gostaria, inclusive da boca de amigos, a seguinte frase: “nada contra, mas eu não curto ficar com gordas, é uma questão de gosto, sabe?”. Galera que fala isso, deixa eu explicar uma coisa: o seu gosto não vem do nada, ele não é natural. Você não nasce só com vontade de pegar gente no padrão, esse padrão é construído. Crescemos achando o corpo gordo feio, indesejável, tendo uma neurose absurda de sê-lo. Isso é tão naturalizado que vocês falam “ai, não posso engordar”, “estou tão gorda, que péssimo” na frente de pessoas que de fato são gordas como se isso não fosse uma ofensa; como se falar “olha que bosta, meu corpo está ficando igual ao seu, quero morrer” fosse tranquilo e não vá afetar de modo algum quem está te ouvindo. Aí você quer virar pra mim e falar que não pega gente gorda por uma questão de gosto? Faça-me o favor.

gordaMais uma questão para refletirmos: vamos supor que o sujeito magro seja descontruído e passe por cima disso, mas ainda existem as pessoas em volta de vocês, a piada dos amigos, a reclamação da família, o preconceito nos olhares, e por aí vai. É bem impressionante como o amor é condicionado. Ele só é válido se for de uma tal forma, de um tal jeito, e a felicidade que é constantemente associada ao amor só alguns merecem ter. Porque, no fim das contas, essa é sempre a raiz do problema: os gordos não podem ser felizes nunca. Isso invalida a ordem das coisas no caminho para o pote de ouro da felicidade: só pode magra. Uma gorda feliz consigo mesma? Não pode, a gente vai oprimir até ela voltar a se odiar e querer entrar na fila da felicidade dos magros de novo. Demorou muito tempo para eu entender por que eu não conseguia transar com ninguém; por que tirar a roupa e ficar nua na frente do outro era tão assustador; por que ficar vulnerável era um risco diferente para mim; por que ir em uma boate e ficar sozinha em um canto enquanto todos os meus amigos estão com alguém não é minha culpa; por que não ter ninguém igual a mim em lugares assim não é coincidência; e, principalmente, por que eu mereço mais do que alguém que tenha vergonha de mim, e por que um relacionamento maduro e saudável é o mínimo aceitável. Migalhas nunca mais.

É importante lembrar que mesmo nós, gordos, não estamos imunes à visão gordofóbica das coisas. Ela é muito forte no mundo em que crescemos e vivemos. Até conhecer e me apaixonar por um gordo, eu de certa forma também torcia o nariz e me sentia nadando na hipocrisia. Óbvio que as atrações existem e não conseguimos criar uma onde não tem, mas dá para abrir a cabeça um pouquinho, cogitar pessoas e não as mandar direto para a pilha de pessoas impossíveis. É só dar uma chance para as coisas acontecerem; eu fiz isso e tive um relacionamento ótimo, até descobri que me sinto muito mais à vontade e confortável me relacionando com pessoas gordas.

adelePara mim, o amor é tão maior do que achar ou não uma pessoa bonita. Se apaixonar por alguém não é só se apaixonar pelo seu corpo, é se apaixonar pelo seu jeito, sua visão de mundo, seus pensamentos, sua risada. É tão mais coisa, e nós, gordas, não somos só o nosso corpo, somos pessoas completas e interessantes com muito a oferecer para os nossos companheiros. Porém, é sempre bom lembrar que não somos interessantes “apesar” de sermos gordas. Ser gorda faz parte do pacote e é lindo, porque isso faz da gente a gente. Para fechar, vamos recapitular que a primeira coisa mais importante de tudo é a gente se amar; a segunda é a gente se amar, e a terceira é sim, nós merecemos o amor que a gente quer e que nos faz bem, felizes e saudáveis, porque o amor é livre e é para qualquer um.

Originalmente publicado aqui.

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Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso.

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“Cesárea também pode ser um parto humanizado”, simples assim.

Sabe quem de fato, consegue “azedar” mais o tal do “ativismo pelo parto humanizado”? Será o médico cesarista? Eu estou uns bons anos para dizer que não, hein…. Que somos nós, as próprias ativistas mesmo. Porque jogamos nosso tempo fora debatendo sobre coisas infrutíferas, com uma dinâmica ridícula que só sai do campo das “tretas maternas” ileso, quem concorda e quem tem “conhecimento científico o suficiente”.

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Olha o Enzo aí! 

Eu fui uma mãe “empoderada” a gestação inteira, eu li, eu estudei, peguei gosto, tanto que se eu fosse escolher algum curso hoje, eu escolheria obstetriz sem dúvida alguma. Isso não me garantiu um parto vaginal humanizado, isso me garantiu uma cesárea respeitosa ao menos. Porque digam o que quiserem dentro de grupo, bebê pélvico e família desesperada é fator mais que suficiente para abalar o psicológico de 98% das mulheres, infelizmente.

Agora, eu abrir discussão em grupo para falar sobre algo que exige conhecimento científico, pedindo opinião para mulheres mães, para somente alimentar meu próprio ego refutando os comentários de cada uma delas, alimentando e botando para funcionar uma dinâmica que só tende a deixar de fora quem não se encaixa, não é nada sobre ativismo, nem sobre acolher mulher alguma…. É sobre reunir num grupo apenas as mulheres que concordam com você, é apenas sobre segregar ainda.

Todo movimento de esquerda pode ter esse “privilégio” de se dividir… Quem não pode somos nós mães. Sabe porquê?! Porque pasme você, mas mães quando falamos em recorte, são uma das pessoas mais inviabilizadas, estereotipadas…

Cada uma que consegue entender que a importância de um bom parto não é postar foto e fazer relato e sim algo tão importante quanto de fato a saúde e uma vida saudável para ambos, é necessária. Cada mulher que é acolhida dentro de grupos, tenha tido a via de nascimento que for, ou até mesmo optado por ela, deve ser acolhida, direcionada, aconselhada. Deve ter o respeito a sua escolha garantido. Alimentar e endossar o coro para expor outras mães em grupos maternos, alimentar e endossar o coro para incentivar que uma mulher venda o carro para pagar o parto, não é sobre ativismo…. É só sobre ego ainda. É só sobre as suas necessidades projetadas noutra pessoa.

13432341_1062871417134560_1318584652662496885_nPasme se eu disser que antes uma parturiente que prefere sim, esperar o trabalho de parto, faz plano de parto consciente de que seu convênio ou o hospital público não vai bancar seu parto e ela terá sim de fazer cesárea, porque é o que sobra de opinião no mundo real para realidade dela, que pode ser que tenha problemas x e y e por isso não vai ser atendida em casa de parto, mas que joga com a realidade e faz um relato de parto que tem chances de ser acatado pela equipe que fará sua cesárea. E consciente aceita sua realidade lidando com as consequências dela, do que uma mãe que vende carro, se endivida, cria uma expectativa, planeja de um jeito e se vê do nada dentro do centro cirúrgico, com a barriga sendo aberta, despreparada, com um plano de parto que a equipe se quer vai ler, porque ele já deixa claro que é sobre parto natural, e a gestante fica lá… Chorando e com suas escolhas jogadas no lixo por uma coisa chamada: realidade.

 

“Nossa Dai, que desserviço, você está prejudicando o ativismo só porque você fez cesárea, você anda muito azeda, chata e desgostosa”.

Olha, e se eu falar para vocês que eu saí da bolinha da internet e fui viver?! Talvez as coisas não aconteçam do dia para noite, talvez necessite de mais tempo…. Talvez devamos começar instruindo a mãe a respeito do que é palpável para ela. Uma mãe de pélvico, de convênio, que não tem dinheiro para bancar equipe particular, nem viagem para hospital em outra cidade, tem que trabalhar com fatos e circunstâncias, ponto. Mais fácil ela ser aconselhada a criar um plano de parto que seja razoável para sua realidade, do que ela se imaginar indo para o meio do mato parir um pélvico desassistido.

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10 meses de vida! ❤

O ativismo pelo parto, assim como os demais movimentos de esquerda, anda precisando conversar com a realidade. Talvez esse seja o caminho de fazer as pessoas entenderem que a questão da violência obstétrica não está ligada apenas com a semana de gestação “permitida” para fazer cesárea ou não. E sim com um atendimento digno, respeitoso, e com muita informação de qualidade no pré-natal. E mais do que tudo isso junto: acolhimento de verdade e respeito pelas decisões. Mesmo se ela optar por uma cesárea, talvez seja realmente melhor para realidade dela. Para história dela. Para o que ela tem naquele momento.

Que o parto natural humanizado é a melhor via, eu não tenho dúvida. Agora se ele for possível para todas, ele com certeza não é. Então vamos falar individualmente sobre cada caso, sobre a realidade de cada mãe, acolher ela dentro das suas possibilidades, sem precisar lembrar ela (de maneira travestida de “informação”) de que ela é uma bosta por não ter conseguido aquilo.

Nós não temos o privilégio nem de nos separar, ou nos unimos, ou não se conquista NADA.

13240052_1042216402533395_8035195409455186292_nDaiane Oliveira já esteve aqui antes só que falando sobre Maternância, lindamente! Possui uma marca de slings chamada Ocatus, tem uma lojinha muito marota na Galeria do Rock, possui uma página linda chamada Maternância, e ainda é a mãe dessa lindeza que é o Enzo.

A cultura do estupro

Não podemos perder tempo disputando a realidade. Um ato sexual que acontece sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Sempre.

“Uma rosa, por qualquer outro nome, teria o aroma igualmente doce.” Este trecho de Romeu e Julieta, a peça famosa de William Shakespeare, é frequentemente referenciado em artigos e debates sobre o peso e a volatilidade da linguagem.

Na cena em que esta fala se dá, Julieta – uma Capuleto – argumenta que não importa que Romeu seja um Montéquio, pois o amor que sente é pelo rapaz, e não por seu nome. A beleza da citação é o que ela implica: os nomes que damos às coisas não necessariamente afetam o que as coisas realmente são.

“Estupro, por qualquer outro nome, seria uma ação igualmente violenta.” Seria. Mas, ao contrário das rosas – que reconhecemos como rosas, por isso chamamos de rosas –, relutamos em reconhecer quando um estupro é estupro para poder então chamá-lo de estupro.

Estupro é a prática não consensual do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, configura estupro.

Se aceitarmos que esta é a definição de estupro, quantas já sofremos um, e quantos já cometeram um? Garanto que muita gente.

Consentimento é um conceito-chave para compreendermos e admitirmos que existe uma diferença entre sexo e estupro. Sexo é consensual, e se for adiante sem consentimento, deixa de ser sexo e passa a ser estupro.

A pessoa pode estar embriagada, vestida de forma sensual, pode já ter indicado querer sexo, pode estar nua e na cama e até mesmo já ter iniciado o sexo. No momento que ela declara não querer sexo, ou querer interromper o sexo, a ação deve parar. (E vale ressaltar que a ação não deve nem começar se a pessoa não estiver em condições de dizer sim…).

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É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa.

Precisamos levar a sério a asserção de que qualquer ato sexual que ocorre sem o consentimento de uma das partes envolvidas é um estupro. Apenas o sexo praticado com o consentimento das partes envolvidas pode ser chamado de sexo.

O ato sexual praticado sem consentimento não é sexo: é violência. É estupro. Não pode ser tão difícil que concordemos a este respeito. Se quando um não quer dois não brigam, quando um não quer dois não transam. Isso não é complicado de entender.

Ainda que a prática vitime homens e mulheres, historicamente as mulheres são as mais atingidas. A permanência deste padrão é garantida pelo que chamamos de cultura do estupro.

A violência contra a mulher é concreta, sistemática e balizada por números reais e dados científicos que são publicados por organizações competentes e sérias. O feminismo se ocupa, dentre outras coisas, de revelar esta violência com o intuito de reduzi-la – de extingui-la.

Que gastemos tempo disputando quais narrativas que articulam como a luta feminista contra a violência são mais ou menos eficazes é compreensível. Mas é uma perda total de tempo e energia disputar a realidade que fomenta estas narrativas.

Nossa realidade é a iniquidade, e tornar visível a ameaça constante da violência que mantém essa desigualdade (violência cujas manifestações mais agudas são o estupro e o feminicídio), é o que faz o feminismo.

Não deveríamos desperdiçar nenhum segundo evidenciando o que já está provado, mas, infelizmente, ainda precisamos fazer isso. É preciso que a sociedade passe a acreditar no que dizem as mulheres, e é urgente pararmos de disputar se estupro é ou não estupro. É sexo sem consentimento? É estupro.

A cultura do estupro é a cultura que normaliza a violência sexual. As pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não serem estupradas.

Cultura do estupro é duvidar da vítima quando ela relata uma violência sexual. É relativizar a violência por causa do passado da vítima ou de sua vida sexual. É ser mais fácil acreditarmos em narrativas de uma suposta malícia inerente das mulheres do que lidarmos com o fato de que homens cometem um estupro.

A cultura do estupro é visível nas imagens publicitárias que objetificam o corpo da mulher. Nos livros, filmes, novelas e seriados que romantizam o perseguidor. No momento que acatamos como normal recomendar às meninas e mulheres que não saiam de casa à noite, ou sozinhas, ou que usem roupas recatadas.

Todas essas ações revelam o que chamamos de cultura de estupro porque todas normalizam que a responsabilidade pelo estupro é da vítima. Não é. O protagonista do estupro é o estuprador.

A cultura do estupro é machista, e o machismo cria e mantém a cultura do estupro. É machismo partir do pressuposto de que o que uma mulher revela sobre estupro é invenção. É machismo duvidar das mulheres por partir do pressuposto que uma declaração sobre estupro é falsa.

Na cultura machista que sustenta a cultura do estupro, a voz das mulheres é tomada como dissimulação. Na cultura machista as mulheres são malignas (olá Eva, bruxas e súcubos do imaginário coletivo), e os homens são eternas vítimas de nossas calúnias.

Mas os números não mentem, e se a manutenção da lógica machista depende da fantasia, o feminismo aponta para a realidade.

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Machismo mata.

Você conhece um estuprador? Eu conheço pelo menos três. Moços “de bem”, de família, que chegaram a frequentar a minha casa e que, por causa da cultura do estupro, acharam que fazer sexo em (não “com”, “em”) três amigas minhas enquanto elas dormiam porque estavam embriagadas era aceitável.

Elas estavam bêbadas. Elas estavam de roupas curtas. Mas elas definitivamente não estavam pedindo. Acreditar que elas estavam pedindo sexo por estarem alcoolizadas ou vestidas de um ou outro jeito é sucumbir à cultura do estupro.

Cultura de estupro é assunto de todos. Estupro é uma violência, e uma violação grave dos direitos humanos que atinge mulheres desproporcionalmente. Precisamos falar sobre cultura de estupro. Precisamos falar sobre machismo. Precisamos falar sobre misoginia. Precisamos falar sobre cultura patriarcal. Estas coisas estão conectadas. E precisamos falar sobre elas.

O feminismo existe bastante porque a voz das mulheres e as nossas falas são tão desvalorizadas socialmente que é preciso um movimento – militante e teórico – para dar conta de articular a realidade de forma convincente para uma sociedade propensa a não acreditar em nós.

Precisar explicar que qualquer ato sexual que acontece sem consentimento é estupro,ad infinitum, é evidência da permanência da cultura do estupro.

É exaustivo disputar a realidade com quem não quer enxergá-la porque não é diretamente afetado por ela. Por isso precisamos revelar que existe, sim, uma cultura que normaliza o estupro e a violência contra as mulheres. Falar é uma ação, denunciar o machismo é uma ação, revelar a misoginia é uma ação.

Pois falemos, então, com a linguagem adequada. A cultura do estupro existe e é visível, e sexo sem consentimento é estupro, ainda que alguns relutem em admitir isso. Mas uma rosa, por qualquer outro nome…

 

12316621_10156312964710068_5425964561407265867_nA linda e apaixonante Joanna Burigo é fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura, de quebra é colunista da Carta Capital, onde o texto foi publicado originalmente em 2 de junho de 2016.

16 formas de combater a cultura do estupro

A cada 11 minutos, uma pessoa denuncia um estupro no Brasil. 88,5% das vítimas de estupro são mulheres. 50,7% das vítimas de estupro tem menos de 13 anos. A previsão mais pessimista estima que apenas 10% dos estupros são notificados no Brasil. A mais “otimista”, aponta que cerca de 35% dos estupros são denunciados formalmente.

O estupro é um crime extremamente subnotificado e pouquíssimos casos resultam em condenação. Isso em qualquer lugar do mundo. E por que esse é um crime tão pouco denunciado? A revitimização da vítima que tem sua vida exposta e sofre com julgamentos que a culpam pela violência que sofreu é um ponto que influencia bastante nesse fenômeno.

A revitimização acontece em vários momentos: no atendimento na delegacia e no hospital, no judiciário, nas notícias que são escritas focando na vida íntima da vítima e nas falas da sociedade, em geral. E isso pode ser algo combatido por todos nós. Que tal repensarmos nossos discursos e ações?

1) Parar de dividir mulheres entre as boas e as vadias.

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Nem puta, nem santa, só mulher.

Dividir as mulheres em grupos se baseando no comportamento delas é uma forma de perpetuar a ideia de que algumas mulheres merecem sofrer violência sexual ou que as personalidades e hábitos das vítimas sejam vistos como justificativa pela violência que sofreram. Mulheres com vida sexual ativa, que frequentam boates e bares, que bebem, que usam roupas curtas, fumam, tem tatuagens, falam palavrões são consideradas menos dignas de respeito e são chamadas por muitos de vadias, vagabundas e outros termos correlatos. Todas as mulheres merecem respeito e essa divisão ajuda a manter como vigente uma ideia contrária ao respeito a todas.

2) Abandonar o uso de frases como “cu de bêbado não tem dono”.

Sim, uma frase comum como essa reproduz conceitos problemáticos sobre consentimento. É importante lembrar que não é possível consentir com o ato sexual estando desacordada ou incapaz de oferecer resistência. Uma pessoa que está alcoolizada ou drogada e perde o controle de suas faculdades mentais durante esse período não está apta a consentir. Violar o consentimento nesse caso consiste em estupro de vulnerável.

Ou seja, se você ouvir ou ler alguém falando algo como “Você quer transar com essa moça? É só embebedá-la que ela vai ficar facinha”, se manifeste, repudie. Deixe claro que não é algo legal, pelo contrário, é um ato criminoso.

3) Não assediar mulheres na rua e nem na internet. Não naturalizar o assédio.

O assédio nas ruas acontece através das “cantadas”. Muitos alegam que elas são elogios, mas é preciso alertar aqueles que tem o hábito de assediar e os que justificam esse assédio que a grande maioria das mulheres se sente incomodada, intimidada, constrangida e muitas vezes amedrontadas com essas falas.

O assédio virtual consiste em elogios agressivos, inconvenientes, envio de imagens de pênis não solicitadas e outras práticas como essas e incomodam e constrangem as mulheres.

Em ambas as situações, as mulheres são vistas como objetos e são invadidas com abordagens incômodas de desconhecidos ou conhecidos que não tem intimidade para tanto. Parece algo pequeno, mas não é, porque o assédio é consequência dos corpos das mulheres serem vistos como disponíveis para serem avaliados.

4) Não culpar a vítima.

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A culpa NUNCA é da vítima. Quando vocês vão entender isso?

A culpabilização da vítima expõe a vida da vítima, relativiza o ato do agressor e ignora que estupro não é algo que se justifica. Os julgamentos feitos do comportamento da vítima se baseiam em machismo: comentam sobre a roupa que a vítima usava, onde ela frequentava, a vida sexual dela, o horário em que ela estava fora de casa. Nada disso importa, porque a mulher deve ser livre e viver sua vida como bem entender. Julgar o comportamento da vítima e culpá-la pela violência que sofreu é retirar o estuprador do foco, sendo que ele é o criminoso e desacreditá-la.

5) Parar de falar coisas como “meu time estuprou o seu”, quando ele perder feio.

Estuprar não significa vencer, conquistar, ter um resultado incrível. Estuprar é um crime que fere a dignidade da vítima e não pode ser usado como uma metáfora de algo bom. Usar um termo que significa um ato de violência dessa forma é de uma falta de empatia tremenda e esvazia o significado da palavra como crime. Na verdade, pare de usar “estuprar” como metáfora para qualquer coisa, porque isso tira o foco do crime e banaliza a palavra.

6) Não fazer piadas sobre estupro.

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Gente que sabe que “piadas” de estupro não são engraçadas.

Não é engraçado, é uma falta de empatia tremenda e contribui para que a palavra e o ato sejam relativizados. As “piadas” geralmente se baseiam em “ela gostou” ou diminuem o ato como violência. Além disso, pessoas que querem ser engraçadas muitas vezes usam a ideia de que a mulher considerada feia por não estar nos padrões deve se sentir agradecida por alguém ter, por alguns momentos, a desejado. Esse discurso já foi usado até mesmo por deputado em Plenária para deslegitimar uma deputada. “Como alguém ia querer estuprar uma mulher tão feia?” e frases correlatadas ofendem a vítima e atuam também como uma forma de desacreditá-la. Nesse ponto é importante deixar claro que o estupro é um crime motivado pelo poder, pela violência, pela ideia de que o outro é inferior e não por desejo.

7) Parar de falar coisas como “ela tá precisando é de rola, alguém precisa dar um jeito nela, hein?” e “mal comida”.

Colocar o sexo com um pênis como algo que corrige uma característica considerada negativa numa mulher é reproduzir a lógica de correção através da punição. As mulheres que se relacionam com outras mulheres sofrem com uma violência específica chamada estupro corretivo e frases como essas reiteram a ideia-base dessa agressão. Essa violência específica se baseia na ideia de que o estupro faria a vítima parar de se relacionar com outras mulheres. Mulheres heterossexuais também podem ser vítimas de estupro corretivo, mas o viés é outro tipo de correção.

 8) Ensinar sobre consentimento para as crianças.

Desde a mais tenra infância é necessário ensinar noções de consentimento para crianças. Isso ajuda a criança a identificar a violência, caso aconteça com ela e também a evitar que elas cresçam sem noção sobre os limites do outro.

É importante que as pessoas parem de naturalizar violações de consentimento cometidos por meninos com frases como “esse é meu garanhão”. Repreenda a criança que beije seus coleguinhas sem que eles permitam, que mexam na saia de uma mulher, que toquem o seio de mulheres.

Dica: leiam o texto “30 maneiras de ensinar crianças noções de consentimento”.

9) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação que combata o machismo e demais preconceitos.

A educação é uma forma de enfrentar o machismo desde cedo e combatê-lo. Através dela, é possível desconstruir a ideia de que meninos tem que ser garanhões, dominadores e meninas tem que ser quietas e passivas. Quebrar essa lógica é bater de frente com ideias como “prendam suas cabritas que o meu bode está solto” e contribui até mesmo na luta contra a homofobia e lesbofobia, já que a socialização do homem garanhão se baseia também na heteronormatividade e no futuro resulta no apagamento e invisibilidade da sexualidade lésbica, por exemplo.

10) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação sexual de qualidade e focada no consentimento.

A educação sexual deve ser voltada a ensinar não só sobre prevenção de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, ela deve ensinar também noções de consentimento e a identificar a violência sexual.

11) Entender que projetos de lei que tentam dificultar o atendimento a vítima de violência sexual e a possibilidade de aborto faz parte da cultura do estupro.

Obrigar uma mulher a seguir com uma gravidez fruto de um estupro é uma revitimização. Dificultar que ela consiga abortar, caso queira, também. Além disso, colocar a necessidade do boletim de ocorrência acima dos cuidados quanto à saúde, como o Projeto de Lei 5069/13 quer, é de uma misoginia tremenda, já que isso se baseia em desacreditar a vítima e não em garantir a dignidade dela. Leia a entrevista com um obstetra especialista no aborto legal.

12) Combater a ideia de que o corpo da mulher é público.

Uma mulher acompanhada de um homem é vista como propriedade dele, disponível para ele. Uma mulher sozinha é vista como disponível para todos. Isso é objetificação, desumanização.

É preciso parar de naturalizar comportamentos como: durante uma investida numa mulher, insistir bastante ao ouvir apenas a negativa e só desistir se ela falar que tem namorado, está acompanhada. Mulheres tem direito a dizer não, mesmo solteiras, desacompanhadas. Respeitem o não sempre.

Além disso, pequenas coisas como “não tocar na barriga de uma grávida sem consentimento” já são formas de ir contra essa ideia. A mulher já é vista como propriedade de todos, a mulher grávida mais ainda. Não assediar mulheres, através de cantadas, também.

13) Não aceitar a naturalização do “quero uma novinha”.

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Gente que sabe que a “novinha” é uma criança.

A cultura de valorizar as “novinhas” é perigosa porque ignora que, segundo a lei, é estupro de vulnerável se relacionar sexualmente com menores de 14 anos. A lei considera que nessa idade, a pessoa é incapaz de consentir. Essa cultura é reiterada em diversas músicas populares, como “Nosso Sonho” do Claudinho e Bochecha e na pornografia.

14) Entender que estupros não ocorrem só entre desconhecidos.

Estupros ocorrem não só entre desconhecidos, num beco, de noite. Eles ocorrem muitas vezes dentro de casa, entre conhecidos, familiares e até namorados/esposos. O estupro cometido pelo companheiro é conhecido como “estupro marital” e é constantemente esquecido quando falamos sobre o assunto.

Em apenas 52 países, o estupro marital é um ato punível. Isso acontece porque a mulher é vista como propriedade e o sexo como uma obrigação conjugal. O estupro marital foi reconhecido pela ONU como uma violação de direitos humanos só em 1993. No Brasil, essa violência está incluída na Lei Maria da Penha.

15) Repensar o seu consumo de pornografia.

Sim, a indústria pornográfica reproduz a cultura do estupro com vídeos cada vez mais violentos em que não se percebe bem se o sexo é consentido ou não. Vídeos de estupros são listados em vários sites como vídeos pornográficos, porque a humilhação e a agressividade são colocadas na pornografia como lugares comuns do sexo. Lembrando que a pornografia é vista como uma educação sexual, principalmente para meninos e eles crescem com essas noções deturpadas do que é sexo.

16) Abandonar ideias como “espero que o estuprador vire mulherzinha na cadeia”.

O estupro não pode ser visto como uma forma de corrigir/punir, nem mesmo se essa lógica ir contra o estuprador. Isso ajuda a manutenção da cultura do estupro. Além disso, usar “virar mulherzinha” como sinônimo de ser estuprado diz muito sobre como nossa cultura vê a mulher como inferior e o corpo feminino como disponível.

Imagem de Indiretas Feministas e d’O Gato e o Diabo.

Veja o vídeo “De 30 não salva 1” do Canal Tititias aqui. O vídeo fala sobre como estupradores não são monstros/doentes/raras exceções.

Nota do Ativismo de Sofá sobre o “nem todos os homens”.

Texto de Thaís Campolina com contribuição de Kel Campos, do Ativismo de Sofá.

Originalmente publicado aqui.

O silêncio que ecoa: a cultura do estupro no Brasil

O que é essa tal de cultura do estupro?

Quando a violência sexual torna-se algo usual dentro de uma sociedade, podemos usar o termo cultura do estupro para nomear tal abuso. É um conceito usado para indicar o quanto a violência contra a mulher é normalizada dentro da sociedade. A tolerância e a normalização acabam incentivando ainda mais as atitudes violentas. Entre os exemplos de comportamentos associados à cultura do estupro estão a culpabilização da vítima, a sexualização da mulher como objeto e a banalização da violência contra a mulher.

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Imagem retirada da página O Gato e o Diabo.

E aqui estamos falando do que é aceito como normal pela sociedade. Se você for mulher, tenho toda a certeza de que já passou por ao menos um episódio de abuso, seja na rua recebendo uma cantada, no transporte público com homens encostando em você ou mesmo dentro de um relacionamento quando a outra parte envolvida não soube aceitar um “não”.

Mas vamos à origem do termo cultura do estupro. Ele começou a ser utilizado na década de 70, quando feministas americanas estavam promovendo esforços para a conscientização da sociedade sobre a realidade do estupro.

Em “Sexual Violence Against Women: Putting Rape Research in Context” (Violência Sexual Contra a Mulher: Colocando a Pesquisa Sobre Estupro em Contexto), a norte-americana Alexandra Rutherford, doutora em ciência e psicologia e especialista em feminismo e gênero, explica que antes do movimento feminista norte-americano levantar o assunto para a discussão, pouco se falava sobre o assunto e, mais ainda, acreditava-se que estupro, violência sexual doméstica e incesto raramente aconteciam.

Em 1974, o conceito cultura do estupro foi usado pelas feministas norte-americanas Noreen Connel e Cassandra Wilson em “Rape: The First Sourcebook for Women” (Estupro: O Primeiro Livro de Consulta para Mulheres). Foi uma das primeiras vezes em que o termo foi incluído em um livro. Para as autoras, despertar o olhar para a cultura do estupro seria um modo de eliminar tal mal da sociedade.

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Para mim, despertar este olhar continua sendo mais do que importante, afinal, tal mal ainda não foi eliminado da sociedade. Mas voltemos ao ponto histórico: o tema começou a ganhar mais visibilidade no ano seguinte, em 1975, com o grupo New York Radical Feminists (Feministas Radicais de Nova Iorque), que produziu palestras e conteúdo que inspiraram cineastas e escritoras.

Dentre os trabalhos produzidos merecem destaque o documentário “Rape Culture” (Cultura do Estupro), de Margaret Lazarus e Renner Wunderlich, e o livro de Susan Brownmiller, “Against Our Will: Men, Women and Rape” (Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro). Segundo Susan, existe o “uso de estupro como uma expressão da masculinidade, indicação de mulheres como conceito de propriedade, e como um mecanismo de controle social para manter as mulheres na linha”.

Por um lado, se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua feminilidade. A mulher, quando nega uma relação sexual, é vista como uma cockteaser (quem provoca o pênis, mas, na hora H, não quer aceitá-lo). E é aí que aparece a culpabilização. As vítimas de estupro aprendem a se sentirem culpadas. “Alguma coisa elas fizeram pra merecer isso”, é o pensamento dominante.

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Para Susan, força, ou a ameaça da força, é o método mais usado contra a mulher. O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que as mulheres foram treinadas desde a infância a temer. Desde pequenas, não estamos em pé de igualdade nesta competição. Quem nunca ouviu que “brincar que lutinha é coisa de menino”, por exemplo? Enquanto eles são incentivados a buscar a força física, somos incentivadas a brincar de casinha.

O pensamento que reinava até então – e continua reinando em diversos lugares, convenhamos – era de que a mulher poderia ter contribuído com o estupro, caso não tivesse tentado resistir. Então, a obra de Susan foi precursora em abordar o estupro como sendo uma forma de violência, poder e opressão masculina e não de desejo sexual. Ali, pela primeira vez em um livro, foi escrito o que o estupro realmente é: uma forma consciente de manter as mulheres em estado de medo e intimidação.

Que fique bem claro então: estupro não é um crime relacionado a sexo ou desejo sexual. O estupro se refere a uma relação de poder: trata-se de um processo de intimidação pelo qual os homens mantêm as mulheres em um estado de medo permanente. A coação é feita criticando as mulheres que não aceitam se submeterem a essas regras e culpando as vítimas de crimes sexuais. Com medo de serem hostilizadas e violentadas, acabam se submetendo à autoridade masculina para evitar mais violência.

Assim, ao observar a nossa sociedade nos dias de hoje, podemos claramente enxergar como a cultura do estupro continua viva. Da mesma maneira que antes, hoje a sociedade ainda leva em consideração a maneira como a vítima está vestida e até mesmo sua vida e hábitos. Se a mulher está vestida de forma tida como provocante, isso é considerado um atenuante para o agressor. Se ela tiver vários parceiros, beber demais ou voltar muito tarde para casa, também.

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No Brasil, Maria Cecilia de Mello e Souza, psicóloga e pós-doutoranda em antropologia social; e Leila Adesse, pediatra e doutoranda na área de Saúde da Mulher, são as organizadoras da obra mais abrangente sobre o tema publicada no país, “Violência Sexual no Brasil: perspectivas e desafios”. O livro reúne pesquisas sobre a incidência e a natureza da violência sexual, os serviços um levantamento sobre a legislação e as políticas públicas.

As autoras relatam que no Brasil, a violência doméstica se destacou como foco no início do movimento feminista e das intervenções propostas. Tal mobilização se deu em função da brutalidade dos numerosos casos de violência conjugal, de um lado, e da impunidade dos agressores, de outro. Para elas, apenas recentemente (o livro foi publicado em 2005)a atenção se volta para outras formas de violência, como a sexual.

E é bem por aí mesmo. Um exemplo é que somente em 2002, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a violência sexual como todo ato sexual não desejado, ou ações de comercialização e/ou utilização da sexualidade de uma pessoa mediante qualquer tipo de coerção. Ainda que a demora seja evidente, ações como esta, mostram como o debate sobre as relações de gênero têm aumentado e vêm trazendo debates significativos envolvendo as áreas psicossociais, de saúde, econômica, política, jurídica e cultural.

As mulheres vêm obtendo êxito na conquista de certos direitos sociais e progredindo em direção à igualdade de gênero. Mas a desigualdade, no entanto, ainda não foi totalmente ultrapassada, sendo um reflexo da tradição patriarcal da sociedade.

Nos últimos dois anos, casos a sobre a violência contra a mulher vem enchendo cada vez mais os noticiários – como a pesquisa do Ipea (2014), que após correção indicou que 26% dos entrevistados consideram que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”; as cada vez mais frequentes denúncias de abusos sexuais cometidos em transportes públicos; e as campanhas contra as cantadas de rua –, tendo o termo cultura do estupro ganhado mais repercussão na mídia.

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Em todos esses exemplos, uma coisa fica nítida: as mulheres não são vistas como seres com vontade própria, são consideradas propriedade dos homens. Cabe às mulheres obedecerem às regras masculinas – ser feminina, falar baixo, aceitar ser vista como objeto sexual pois “homem é assim mesmo”. E quem não aceita as tais “regras masculinas” é culpada por tudo o que lhe vier a acontecer.

Um resumo bem didático sobre o que é a cultura do estupro? Uma estrutura onde a mulher é culpada por qualquer constrangimento sexual que venha a passar. Uma sociedade que acha normal uma mulher ser constrangida na rua por uma cantada; normal uma mulher ser estuprada por estar bêbada ou usando roupas curtas; normal uma mulher ser forçada a fazer sexo com o companheiro, afinal, ele é seu marido ou namorado; normal uma mulher ser vista apenas como objeto para satisfazer as vontades alheias; normal uma mulher ser intimidada por homens heterossexuais quando é lésbica, porque na verdade ela tem que aprender a gostar de homem.

E é exatamente essa normatização que precisa ser combatida.

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Grazi Massonetto é uma jornalista que ainda acredita na (r)evolução, tem a casa lotada de bichos e não gosta que ninguém venha lhe dizer o que deve fazer.

Originalmente publicada aqui, 05/10/2015.

Eles ganharam. Por enquanto.

E o impeachment passou ontem na Câmara, por 367 votos favoráveis, 137 contra, e 7 abstenções.

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Creio que todo mundo esperava um placar mais apertado (eram necessários 342 votos para passar), então realmente foi uma enorme derrota, e uma ducha de água fria na militância, que fez manifestações por todo o país. Esses ativistas certamente estão arrasadxs.

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Mas José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, deu uma coletiva interessante à imprensa pouco depois do resultado, e mostrou que o governo não vai se deixar abater — nem a presidenta, que ele definiu como “forte, uma mulher de fibra. Vai continuar na luta, e espera assim motivar a militância (ou seja, grandes grupos que fazem parte da Frente Brasil ou que apoiam o governo, como CUT, MST, Movimento dos Sem Teto, UNE etc) a fazer o mesmo”. Já na semana passada, a CUT disse que organizaria uma greve geral se o impeachment fosse aprovado.

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Para José Eduardo Cardozo, “a decisão da Câmara foi puramente política.”

Antes de falar sobre os próximos capítulos, vou falar sobre a votação. Foi um show de horrores. A maior parte dos deputados dedicou o voto pelo impeachment à própria família. Vários citaram esposas, filhos, mães, como se estivessem numa cerimônia do Oscar, não como representantes de seus eleitores. Não era muito difícil ver o que cada um iria votar: alguns estavam enrolados na bandeira brasileira, outros tinham essas cores num lacinho na lapela.

Se restava alguma dúvida, era só eles abrirem a boca. Deputados que falavam em família (quase sempre a própria), deus, “esperança do povo brasileiro”, honra, amor à vida e tal, nem precisavam declarar o voto. A gente já sabia.

Ah, antes do início da votação houve o discurso dos líderes dos partidos. Foram muitos. O de Silvio Costa, do PTdoB-PE, foi um dos melhores. Em vez de dizer “excelentíssimo deputado” e todas aquelas hipocrisias, Costa virou pro Cunha e gritou: “Quem está tentando assumir o Brasil é o PCC, Partido da Corja do Cunha. Bandido! Ladrão!” Mais tarde, Costa chorou com o resultado. E a Câmara zombou do seu choro.

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Chico Lopes, deputado do PCdoB do Ceará ironizou perfeitamente a situação em que se encontrava.

Chico Lopes, deputado famoso do PCdoB aqui no Ceará, foi um dos mais aplaudidos, ao menos no Twitter. Ele ironizou perfeitamente: “Achei que vinha num encontro político, mas era o encontro dos bons maridos e dos bons pais. Voto não”.

Moema Gramacho, do PT-BA, também fez um discurso contundente no final, quando tudo já estava perdido: “Querem tirar Dilma para salvar Cunha, para salvar a si mesmos. Covardes!” Os deputados reaças quase não a deixaram falar.

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Deputada Moema Gramacho do PT-PA.

Esses mesmos deputados vaiaram uma deputada afastada por licença maternidade. Num lugar em que mulheres são apenas 10%, a vaia indica o respeito que esses homens têm por elas. Por nós.

Um dos filhotes de Bolsonaro justificou seu voto “pelos militares de meia quatro”. Pois é, aqueles que fecharam o Congresso em que você ganha o seu pão hoje, infeliz. Aqueles que torturaram a presidenta. Bolsonaro pai veio depois e, pra se destacar entre dezenas de deputados igualmente reaças, puxou o saco com louvor de Eduardo Cunha, e saudou um torturador, o Ustra.

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Deputado Jean Wyllys do PSOL.

Ocorreu um embate entre Bolso e Jean Wyllys que eu só fiquei sabendo depois: Jean cuspiu na direção do fascista. Jean fez um excelente discurso inflamado que lavou a alma de muitxs, e Bolso veio logo em seguida. Segundo o deputado do PSOL, o fascistoide agarrou seu braço e gritou várias ofensas homofóbicas. Jean reagiu com um cuspe (que aparentemente não o atingiu). Ele escreveu: “Eu não saí do armário para o orgulho para ficar quieto ou com medo desse canalha”.

Não concordo com o cuspe, mas sei como deve ser complicado pro Jean aguentar tantas provocações e insultos. Agora os bolsonazis querem cassar um dos melhores deputados da Câmara por falta de decoro parlamentar. Quero acreditar que não vão conseguir. Pô, Bolsonaro já quebrou o decoro quantas vezes?

Dois deputados, um deles Feliciano, cotado para ser vice-presidente na candidatura de Bolsonaro (nunca ganharão, quanto a isso podemos ficar tranquilxs), citaram o guru da extrema direita brasileira, Olavo de Carvalho. Um disse que Olavão tinha razão e que o PT configurava mesmo “perca (sic) total”.

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Deputado Feliciano, cotado para ser vice-presidente na candidatura do Bolsonaro. E não, não vão ganhar, óbvio.

Paulo Maluf, um dos maiores ladrões da história do Brasil, votou a favor do impeachment.

Paulinho da Força Sindical também, e jogou papel picado pro alto. Silvio Torres, do PSDB-SP, arrancou gargalhadas de metade do Twitter ao dizer que seu estado, SP, era governado há vinte anos por políticos honestos. Outro palhaço, Tiririca, mudou seu voto de última hora e disse sim. Não foi o único. Calcula-se que 25 deputados acabaram trocando de lado.

Provavelmente o pior discurso foi o de um deputado que votou pelo impeachment pra impedir que se ensinasse sexo pra crianças de 6 anos e que forçassem meninos da mesma idade a virar meninas. Porque esta definitivamente é uma ameaça real, certo? Teve um outro que glorificou seu estado por ter “a morena mais linda do Brasil”.

Enfim, tivemos uma ótima demonstração de por que este é considerado o Congresso mais conservador dos últimos 50 anos.

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Representatividade nula no Congresso, nada novo sobre o sol.

O que vai acontecer agora? Vai ter luta. É certo que Dilma não vai renunciar. O Senado terá até 11 de maio para aprovar a proposta de impeachment da Câmara. Isso deve ser aprovado por maioria simples, ou seja, 41 dos 81 votos possíveis. Eu acho quase impossível que isso não seja aprovado (a mídia calcula que 44 senadores são a favor). Daí Dilma é afastada do cargo e entra Michel Temer, com Cunha como seu vice.

A partir daí o Senado tem até 180 dias para analisar (e o governo poderá apresentar provas de sua inocência, o que não foi permitido na Câmara) e votar a proposta. Não é tão fácil assim: para o impeachment ser aprovado, são necessários dois terços dos votos, ou 54. Claro que, se o governo já não conseguiu convencer deputados usando seu poder político enquanto estava no governo, estando afastado fica ainda mais difícil. Mas o Senado pelo menos não tem Eduardo Cunha. Ok, tem Renan Calheiros, que não é muito melhor. Essa segunda votação é presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski.

Tem quem torça para que o STF se manifeste antes disso e determine que tudo isso que aconteceu na Câmara foi inconstitucional, mas duvido que o STF interfira na decisão de outro poder.

Se na segunda votação do Senado, que será lá por novembro, a oposição não tiver 54 votos, Dilma volta. Se Dilma for definitivamente impeachada, Temer assume o cargo em definitivo, e fica no poder até 2019. Se ele renunciar ou for tirado do cargo até o final deste ano, convocam-se eleições diretas em noventa dias (enquanto isso, assume o presidente da Câmara, que pelo jeito continuará sendo Cunha pra sempre).

Um outro detalhe sinistro: se Dilma for impeachada pelo Senado e Temer for tirado da presidência ou renunciar ou morrer em 2017 pra frente, sabe quem escolhe o novo presidente? O Congresso.

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Temer durante a votação do Congresso.

Minhas previsões? (que não valem muita coisa, porque eu costumo errar todas). Temer vai governar o país entre maio e novembro, e sabe-se lá quanto ele será capaz de entregar até lá (o céu é o limite). Obviamente, sua posse não representará o fim da corrupção (se bem que a Operação Lava Jato tem boas chances de ser encerrada) nem o fim da crise econômica, embora a mídia e o capital insistirão numa “união nacional”. Ele não será tirado do cargo, porque a elite que realmente manda no país estará muito feliz com ele.

O povo, no entanto, não ficará feliz ao ver que o país não vai melhorar nem um pouco com Temer (pelo contrário), e provavelmente iniciará uma campanha por eleições diretas já. A elite só aceitará essas eleições se, até lá, tiver cassado os direitos políticos de Lula, tornando-o inelegível pelo resto da sua vida. Se não, com a insatisfação popular diante do governo-tampão, Lula volta a ser um forte candidato, talvez saindo na frente na competição com Marina, alguém do PSDB (Aécio? Alckmin? Serra?), qualquer um do PMDB, e Bolsonaro (que nunca terá mais de 20% dos votos e nunca seria eleito num segundo turno de, arrisco dizer, qualquer cargo executivo).

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Desistir? Jamais!

De toda forma, são tempos sombrios. Mas nem tudo está acabado. Não ainda. E o sonho da elite de acabar com o PT (e com qualquer outro partido de esquerda) não vai se concretizar. E, se o PT não vai sumir, quem sabe toda essa crise o coloca finalmente no rumo certo — no rumo da esquerda?

Sim, eu sou uma otimista incorrigível.

Este texto é de Lola Aronovich, professora do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará e autora do blog feminista Escreva Lola Escreva.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Ontem o circo formado durante o processo da votação de Impeachment tornou-se motivo de piada nacional e internacionalmente já que antes de tudo, não existem efetivamente crimes de responsabilidade cometidos pela presidente. Os momentos surreais da votação, ficaram como diversão a parte, já que apenas afirmam que a veracidade, credibilidade do processo em andamento, é nula.

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Os confetes simbolizaram o Congresso Nacional em si: palhaços sem argumentos plausíveis e sem o mínimo conhecimento do trabalho que realizam, ou deveriam realizar pelo menos.

Entretanto um momento chamou muita atenção. Apenas para não perder o hábito das suas falas extremamente preconceituosas, durante o pronunciamento do seu voto Jair Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Ustra no decorrer do seu discurso. Ustra foi um dos torturadores mais temidos durante o período da Ditadura Militar e foi o único militar brasileiro a ser declarado “torturador” pela Justiça.

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Impossível resumir melhor, né senhor Deputado?

Muito antes da Comissão da Verdade em 2013, Ustra já havia sido manchete. A atriz Bete Mendes, que era deputada em 1985, encontrou-o como adido militar no Uruguai – e reconheceu nele seu torturador.

Ustra compareceu à Comissão e, apesar de ter um habeas corpus, respondeu a algumas perguntas. Disse que não cometeu nenhum crime e, em entrevistas, declarou que podem ter havido excessos, mas dos dois lados.

O dossiê da Ditadura inclui o nome dele e sob sua direção, ao menos 47 pessoas desapareceram ou morreram em São Paulo e existem denúncias de mais de 500 casos de tortura cometidos nas dependências do DOI-Codi no período em que ele atuava como comandante.

A crueldade de Ustra pode ser entendida com a leitura de diversos relatos de sobreviventes: Criméia Schmidt foi torturada mesmo grávida de 7 meses. Seus filhos foram levaram ao DOI-Codi e ouviram os gritos de diversos presos políticos sendo torturados e encararam uma mãe irreconhecível. Além disso, ao comando de Ustra, colocaram ratos na vagina de Dilma.

Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”.

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura.

Bolsonaro enalteceu ontem um torturador atroz, desumano, na Câmara dos Deputados. Exaltou o Golpe Militar de 1964 e foi ovacionado. Jorraram comentários à favor do Deputado, decorrentes da sua fala. Várias opiniões de cunho visivelmente conservadoras, apoiando e incitando ao ódio e a misoginia, não só contra a nossa presidente Dilma Rousseff, mas contra todas as mulheres que são representadas através do seu cargo.

Vários comentários ofensivos que circulam e persistem todos os dias na mídia e em rodas de conversa, reacionárias ou autodeclaradas progressistas. O cada vez mais aparente preconceito de gênero disfarçado de visão política. A negação de um período extremamente obscuro à democracia, no qual ainda existem cicatrizes que não podem e não devem ser jamais esquecidas.

A mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, é a da inexistência, da negação. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se aborda apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que alega que nada existiu, que a violência não deixou traços e muito menos indignação.

Não deveriam ser levadas em consideração, questões partidárias ou ideológicas quando citamos a Ditadura de 69. Mas sim, o fato de que várias pessoas pereceram friamente, injustamente e covardemente nos porões dessa mesma ditadura. Que milhares de mulheres foram violentadas e devem ser lembradas com respeito. Situação que visivelmente é desconsiderada, desacreditada e tratada com ironia publicamente.

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Flavia Penido em seu perfil no Facebook logo após o comentário ofensivo do Deputado Bolsonaro.

Hoje, anos após da ditadura brasileira, dos inúmeros muitos relatos dos sobreviventes, das violências incalculáveis que várias mulheres sofreram somente por serem mulheres e foram descritas, devem ser ouvidas e jamais esquecidas. Dar estima à história do que essas mulheres sofreram é reconhecer a nossa própria e das moças que virão depois de nós, pois, como mulheres e também feministas, permanecemos seguindo atrás de nossos direitos, ao mesmo tempo que lembramos e lutamos incansavelmente por justiça por todas que se sacrificaram.

Não passarão comentários machistas, misógino. Muito menos comentários que anseiam o retorno da Ditadura de 1964. A nossa história está viva e persiste. Nossos mortos e desaparecidos políticos jamais serão esquecidos.

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta.”

Por Jessica Beauvoir, estudante de Direito da Universidade Federal de Rondônia, Feminista e moderadora da página O Gato e o Diabo.

Referências Bibliográficas:

BRUM, Eliane. Aos que defendem a volta da ditadura. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/08/opinion/1418042130_286849.html&gt;.

CARDOSO, Clarice. Quando a misoginia pauta as críticas ao governo Dilma. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/quando-a-misoginia-pauta-as-criticas-ao-governo-dilma&gt;.

LUCENA, Eleonora de. Minha História: Fui torturada em 1970 e denunciei o coronel Ustra. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/05/1285003-minha-historia-fui-torturada-em-1970-e-denunciei-o-coronel-ustra.shtml&gt;.

SAFATLE, Vladimir. A verdade enjaulada. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/793/a-verdade-enjaulada-9436.html&gt;.