16 formas de combater a cultura do estupro

A cada 11 minutos, uma pessoa denuncia um estupro no Brasil. 88,5% das vítimas de estupro são mulheres. 50,7% das vítimas de estupro tem menos de 13 anos. A previsão mais pessimista estima que apenas 10% dos estupros são notificados no Brasil. A mais “otimista”, aponta que cerca de 35% dos estupros são denunciados formalmente.

O estupro é um crime extremamente subnotificado e pouquíssimos casos resultam em condenação. Isso em qualquer lugar do mundo. E por que esse é um crime tão pouco denunciado? A revitimização da vítima que tem sua vida exposta e sofre com julgamentos que a culpam pela violência que sofreu é um ponto que influencia bastante nesse fenômeno.

A revitimização acontece em vários momentos: no atendimento na delegacia e no hospital, no judiciário, nas notícias que são escritas focando na vida íntima da vítima e nas falas da sociedade, em geral. E isso pode ser algo combatido por todos nós. Que tal repensarmos nossos discursos e ações?

1) Parar de dividir mulheres entre as boas e as vadias.

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Nem puta, nem santa, só mulher.

Dividir as mulheres em grupos se baseando no comportamento delas é uma forma de perpetuar a ideia de que algumas mulheres merecem sofrer violência sexual ou que as personalidades e hábitos das vítimas sejam vistos como justificativa pela violência que sofreram. Mulheres com vida sexual ativa, que frequentam boates e bares, que bebem, que usam roupas curtas, fumam, tem tatuagens, falam palavrões são consideradas menos dignas de respeito e são chamadas por muitos de vadias, vagabundas e outros termos correlatos. Todas as mulheres merecem respeito e essa divisão ajuda a manter como vigente uma ideia contrária ao respeito a todas.

2) Abandonar o uso de frases como “cu de bêbado não tem dono”.

Sim, uma frase comum como essa reproduz conceitos problemáticos sobre consentimento. É importante lembrar que não é possível consentir com o ato sexual estando desacordada ou incapaz de oferecer resistência. Uma pessoa que está alcoolizada ou drogada e perde o controle de suas faculdades mentais durante esse período não está apta a consentir. Violar o consentimento nesse caso consiste em estupro de vulnerável.

Ou seja, se você ouvir ou ler alguém falando algo como “Você quer transar com essa moça? É só embebedá-la que ela vai ficar facinha”, se manifeste, repudie. Deixe claro que não é algo legal, pelo contrário, é um ato criminoso.

3) Não assediar mulheres na rua e nem na internet. Não naturalizar o assédio.

O assédio nas ruas acontece através das “cantadas”. Muitos alegam que elas são elogios, mas é preciso alertar aqueles que tem o hábito de assediar e os que justificam esse assédio que a grande maioria das mulheres se sente incomodada, intimidada, constrangida e muitas vezes amedrontadas com essas falas.

O assédio virtual consiste em elogios agressivos, inconvenientes, envio de imagens de pênis não solicitadas e outras práticas como essas e incomodam e constrangem as mulheres.

Em ambas as situações, as mulheres são vistas como objetos e são invadidas com abordagens incômodas de desconhecidos ou conhecidos que não tem intimidade para tanto. Parece algo pequeno, mas não é, porque o assédio é consequência dos corpos das mulheres serem vistos como disponíveis para serem avaliados.

4) Não culpar a vítima.

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A culpa NUNCA é da vítima. Quando vocês vão entender isso?

A culpabilização da vítima expõe a vida da vítima, relativiza o ato do agressor e ignora que estupro não é algo que se justifica. Os julgamentos feitos do comportamento da vítima se baseiam em machismo: comentam sobre a roupa que a vítima usava, onde ela frequentava, a vida sexual dela, o horário em que ela estava fora de casa. Nada disso importa, porque a mulher deve ser livre e viver sua vida como bem entender. Julgar o comportamento da vítima e culpá-la pela violência que sofreu é retirar o estuprador do foco, sendo que ele é o criminoso e desacreditá-la.

5) Parar de falar coisas como “meu time estuprou o seu”, quando ele perder feio.

Estuprar não significa vencer, conquistar, ter um resultado incrível. Estuprar é um crime que fere a dignidade da vítima e não pode ser usado como uma metáfora de algo bom. Usar um termo que significa um ato de violência dessa forma é de uma falta de empatia tremenda e esvazia o significado da palavra como crime. Na verdade, pare de usar “estuprar” como metáfora para qualquer coisa, porque isso tira o foco do crime e banaliza a palavra.

6) Não fazer piadas sobre estupro.

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Gente que sabe que “piadas” de estupro não são engraçadas.

Não é engraçado, é uma falta de empatia tremenda e contribui para que a palavra e o ato sejam relativizados. As “piadas” geralmente se baseiam em “ela gostou” ou diminuem o ato como violência. Além disso, pessoas que querem ser engraçadas muitas vezes usam a ideia de que a mulher considerada feia por não estar nos padrões deve se sentir agradecida por alguém ter, por alguns momentos, a desejado. Esse discurso já foi usado até mesmo por deputado em Plenária para deslegitimar uma deputada. “Como alguém ia querer estuprar uma mulher tão feia?” e frases correlatadas ofendem a vítima e atuam também como uma forma de desacreditá-la. Nesse ponto é importante deixar claro que o estupro é um crime motivado pelo poder, pela violência, pela ideia de que o outro é inferior e não por desejo.

7) Parar de falar coisas como “ela tá precisando é de rola, alguém precisa dar um jeito nela, hein?” e “mal comida”.

Colocar o sexo com um pênis como algo que corrige uma característica considerada negativa numa mulher é reproduzir a lógica de correção através da punição. As mulheres que se relacionam com outras mulheres sofrem com uma violência específica chamada estupro corretivo e frases como essas reiteram a ideia-base dessa agressão. Essa violência específica se baseia na ideia de que o estupro faria a vítima parar de se relacionar com outras mulheres. Mulheres heterossexuais também podem ser vítimas de estupro corretivo, mas o viés é outro tipo de correção.

 8) Ensinar sobre consentimento para as crianças.

Desde a mais tenra infância é necessário ensinar noções de consentimento para crianças. Isso ajuda a criança a identificar a violência, caso aconteça com ela e também a evitar que elas cresçam sem noção sobre os limites do outro.

É importante que as pessoas parem de naturalizar violações de consentimento cometidos por meninos com frases como “esse é meu garanhão”. Repreenda a criança que beije seus coleguinhas sem que eles permitam, que mexam na saia de uma mulher, que toquem o seio de mulheres.

Dica: leiam o texto “30 maneiras de ensinar crianças noções de consentimento”.

9) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação que combata o machismo e demais preconceitos.

A educação é uma forma de enfrentar o machismo desde cedo e combatê-lo. Através dela, é possível desconstruir a ideia de que meninos tem que ser garanhões, dominadores e meninas tem que ser quietas e passivas. Quebrar essa lógica é bater de frente com ideias como “prendam suas cabritas que o meu bode está solto” e contribui até mesmo na luta contra a homofobia e lesbofobia, já que a socialização do homem garanhão se baseia também na heteronormatividade e no futuro resulta no apagamento e invisibilidade da sexualidade lésbica, por exemplo.

10) Entender a importância e apoiar/lutar pela educação sexual de qualidade e focada no consentimento.

A educação sexual deve ser voltada a ensinar não só sobre prevenção de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, ela deve ensinar também noções de consentimento e a identificar a violência sexual.

11) Entender que projetos de lei que tentam dificultar o atendimento a vítima de violência sexual e a possibilidade de aborto faz parte da cultura do estupro.

Obrigar uma mulher a seguir com uma gravidez fruto de um estupro é uma revitimização. Dificultar que ela consiga abortar, caso queira, também. Além disso, colocar a necessidade do boletim de ocorrência acima dos cuidados quanto à saúde, como o Projeto de Lei 5069/13 quer, é de uma misoginia tremenda, já que isso se baseia em desacreditar a vítima e não em garantir a dignidade dela. Leia a entrevista com um obstetra especialista no aborto legal.

12) Combater a ideia de que o corpo da mulher é público.

Uma mulher acompanhada de um homem é vista como propriedade dele, disponível para ele. Uma mulher sozinha é vista como disponível para todos. Isso é objetificação, desumanização.

É preciso parar de naturalizar comportamentos como: durante uma investida numa mulher, insistir bastante ao ouvir apenas a negativa e só desistir se ela falar que tem namorado, está acompanhada. Mulheres tem direito a dizer não, mesmo solteiras, desacompanhadas. Respeitem o não sempre.

Além disso, pequenas coisas como “não tocar na barriga de uma grávida sem consentimento” já são formas de ir contra essa ideia. A mulher já é vista como propriedade de todos, a mulher grávida mais ainda. Não assediar mulheres, através de cantadas, também.

13) Não aceitar a naturalização do “quero uma novinha”.

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Gente que sabe que a “novinha” é uma criança.

A cultura de valorizar as “novinhas” é perigosa porque ignora que, segundo a lei, é estupro de vulnerável se relacionar sexualmente com menores de 14 anos. A lei considera que nessa idade, a pessoa é incapaz de consentir. Essa cultura é reiterada em diversas músicas populares, como “Nosso Sonho” do Claudinho e Bochecha e na pornografia.

14) Entender que estupros não ocorrem só entre desconhecidos.

Estupros ocorrem não só entre desconhecidos, num beco, de noite. Eles ocorrem muitas vezes dentro de casa, entre conhecidos, familiares e até namorados/esposos. O estupro cometido pelo companheiro é conhecido como “estupro marital” e é constantemente esquecido quando falamos sobre o assunto.

Em apenas 52 países, o estupro marital é um ato punível. Isso acontece porque a mulher é vista como propriedade e o sexo como uma obrigação conjugal. O estupro marital foi reconhecido pela ONU como uma violação de direitos humanos só em 1993. No Brasil, essa violência está incluída na Lei Maria da Penha.

15) Repensar o seu consumo de pornografia.

Sim, a indústria pornográfica reproduz a cultura do estupro com vídeos cada vez mais violentos em que não se percebe bem se o sexo é consentido ou não. Vídeos de estupros são listados em vários sites como vídeos pornográficos, porque a humilhação e a agressividade são colocadas na pornografia como lugares comuns do sexo. Lembrando que a pornografia é vista como uma educação sexual, principalmente para meninos e eles crescem com essas noções deturpadas do que é sexo.

16) Abandonar ideias como “espero que o estuprador vire mulherzinha na cadeia”.

O estupro não pode ser visto como uma forma de corrigir/punir, nem mesmo se essa lógica ir contra o estuprador. Isso ajuda a manutenção da cultura do estupro. Além disso, usar “virar mulherzinha” como sinônimo de ser estuprado diz muito sobre como nossa cultura vê a mulher como inferior e o corpo feminino como disponível.

Imagem de Indiretas Feministas e d’O Gato e o Diabo.

Veja o vídeo “De 30 não salva 1” do Canal Tititias aqui. O vídeo fala sobre como estupradores não são monstros/doentes/raras exceções.

Nota do Ativismo de Sofá sobre o “nem todos os homens”.

Texto de Thaís Campolina com contribuição de Kel Campos, do Ativismo de Sofá.

Originalmente publicado aqui.

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As mídias sociais estão protegendo os homens de menstruação, leite materno e pêlos corporais

Texto de Jessica Valenti. Publicado originalmente com o título: “Social media is protecting men from periods, breast milk and body hair” no site do jornal The Guardian em 30/03/2015. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

O Instagram deletou uma foto da artista Rupi Kaur que mostrava um pouco do seu sangue menstrual.

Quando a sociedade aceitará os corpos das mulheres?

tamponsarestilltabooAbsorventes internos ainda são um tabu online. Foto: Autor Desconhecido/Encontrada na Biblioteca de Imagens do The Guardian.

Há uma previsível fórmula da mídia para determinar como as imagens online de mulheres devem ser. Seios em biquínis pequenos são legais (geram curtidas, precisamente), mas seios acompanhados de bebês são questionáveis. Mulheres vestindo quase nada é lugar comum, mas se você tiver um tamanho maior que 40, sua conta pode ser deletada. Closes fechados em bundas de mulher e vaginas mal cobertas são agradáveis, desde que essas partes do corpo estejam depiladas.

E agora, em uma polêmica que mais uma vez reúne tecnologia, arte, feminismo e sexo, o Instagram está sob fogo cruzado por ter removido um autoretrato da artista Rupi Kaur, que mostrava uma pequena quantidade de seu sangue menstrual. Aparentemente, estar menstruada viola os termos de serviço do site.

A mensagem geral para as mulheres não poderia ser mais óbvia: imagens sexy são apropriadas, mas imagens de corpos de mulheres fazendo coisas que normalmente corpos de mulheres fazem não são. Ou, para explicar de forma mais grosseira: apenas imagens de mulheres com as quais os homens queiram transar, por favor.

Como pontuou Kaur em sua conta no Tumblr, o Instagram está cheio de fotos de meninas menores de idade que são “objetificadas” e “pornificadas”.

“Eu não vou pedir desculpas por não alimentar o ego e o orgulho da sociedade misógina que poderá ter meu corpo em roupas íntimas mas não se sentirá a vontade com um pequeno vazamento”, ela escreveu.

Porque, realmente, é difícil imaginar as mulheres sentindo-se ofendidas por fotos de amamentação, contornos de biquíni despenteados ou sangue menstrual — eventos assim são uma segunda-feira normal para várias de nós. São os homens que os gigantes das mídias sociais estão “protegendo” — homens que cresceram vendo imagens higienizadas e sexualizadas de corpos femininos. Homens que foram ensinados pela cultura pop, pela publicidade e além a acreditarem que os corpos das mulheres estão lá para eles. E, se eles têm que ver uma mulher que é outra coisa que não magra, sem pêlos e pronta para o sexo — bem, traga um copo com água e açúcar.

Como Kaur escreveu: “A misoginia deles está pingando”.

O lado positivo, é claro, é que a própria natureza das mídias sociais tornou mais fácil para as mulheres apresentarem um conjunto mais diversificado de imagens, de como os corpos femininos podem parecer e significar. Selfies, por exemplo — consideradas por alguns como o ápice da frivolidade e vaidade — estão agora sendo elogiadas por acadêmicas e artistas feministas como uma maneira das mulheres “tomarem posse do olhar” e oferecem um novo senso de controle para as mulheres, como sujeitos em vez de objetos.

Quando temos o poder de criar nossas próprias imagens em grande quantidade, nós temos o poder de criar uma nova narrativa — uma que voa de encontro a narrativa que o mainstream gostaria de nos fazer parecer e representar.

A favor do Instagram, a empresa restaurou a imagem de Kaur após protestos — assim como o Facebook mudou suas normas para permitir imagens de “mulheres engajadas na amamentação ou mostrando as cicatrizes após uma mastectomia”. As empresas de tecnologia estão começando a entender que se querem colocar o poder das imagens nas mãos de seus usuários vão ter que ficar tranquilas com as mulheres sendo totalmente humanas — não apenas imagens de um espelho que a cultura pop quer que sejamos.

Quanto às pessoas que estão escandalizadas com os corpos das mulheres e suas funções naturais: Você não tem que “curtir”, mas você vai ter que conviver com isso.